domingo, 11 de outubro de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
TRECHOS DO LIVRO : EM BUSCA DE SENTIDO - UM PSICÓLOGO NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
VIKTOR E. FRANKL
PREFÁCIO · EDIÇÃO NORTE AMERICANA - de 1984
O escritor e psiquiatra Viktor Frankl costuma perguntar a seus pacientes quando estão sofrendo muitos tormentos grandes e pequenos "Por que não opta pelo suicídio?" É a partir das respostas a esta pergunta que ele encontra, freqüentemente, as linhas centrais da psicoterapia a ser usada. Num caso, a pessoa se agarra ao amor pelos filhos; em outro, há um talento para ser usado, e, num terceiro caso, velhas recordações que vale a pena preservar. Costurar estes débeis filamentos de uma vida semi-destruída e construir com eles, um padrão firme, com um significado e uma responsabilidade - este é o objetivo e o desafio da logoterapia, versão da moderna análise existencial elaborada pelo próprio Dr. Frankl.
Neste livro, o Dr. Frankl descreve a experiência que o levou à descoberta da logoterapia. Prisioneiro durante longo tempo em campos de concentração, onde seres humanos eram tratados de modo pior do que se fossem animais ele se viu reduzido aos limites entre o ser e o não-ser. O pai, a mãe, o irmão e a esposa de Viktor Frankl morreram em campos de concentração ou em crematórios, e exceto sua irmã, toda sua família morreu nos campos de concentração. Como foi que ele - tendo perdido tudo o que era seu, com todos os seus valores destruídos, sofrendo de fome, do frio e da brutalidade, esperando a cada momento a sua exterminação final - conseguiu encarar a vida como algo que valia a pena preservar?
Um psiquiatra que passou pessoalmente por tamanha experiência certamente tem algo a dizer. Ele - mais que ninguém - pode ser capaz de ver a nossa condição humana com sabedoria e compaixão. As palavras do Dr. Frankl têm um acento profundamente honesto, porque estão baseadas em experiências tão profundas que impedem qualquer distorção. O que ele tem a dizer ganha em prestígio devido à sua atual posição na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena e por causa do renome das clínicas logoterapêuticas que hoje estão funcionando em muitos países, segundo o padrão da famosa Policlínica Neurológica de Viktor Frankl em Viena.
É impossível evitar a comparação entre os enfoques terapêutico e teórico de Frankl e o trabalho do seu predecessor, Sigmund Freud. Os dois se preocuparam basicamente com a natureza e a cura das neuroses. Freud encontra a raiz destas desordens angustiantes na ansiedade causada por motivos inconscientes e conflitantes. Frankl distingue várias formas de neurose e atribui algumas delas (as neuroses orgânicas) à incapacidade de encontrar um significado e um sentido de responsabilidade em sua existência. Freud acentua as frustrações da vida sexual; Frankl, a frustração do desejo de sentido e significado. Na Europa, hoje, há uma forte tendência a um distanciamento de Freud e a uma aproximação da análise existencial, que assume várias formas - entre elas a escola de logoterapia. Frankl não repudia a postura de Freud - e isto é típico da sua atitude tolerante - mas constrói seu trabalho de bom grado sobre as contribuições freudianas. Tampouco ataca as outras formas de terapia existencial, mas aceita com satisfação o parentesco da logoterapia com elas.
Esta narrativa, embora breve, é muito bem construída e atraente. Por duas vezes eu a li sem levantar uma só vez da poltrona, incapaz de me afastar da seqüência de suas palavras.
Em algum momento, depois da metade da história, o Dr. Frankl introduz sua própria filosofia logoterapêutica, mas o faz de modo tão suave ao longo da narrativa que só depois de terminar a leitura é que o leitor percebe tratar-se de um profundo ensaio, e não apenas de mais uma história sobre as brutalidades dos campos de concentração.
O leitor pode aprender muito com este fragmento autobiográfico. Ele percebe o que um ser humano faz quando subitamente compreende que não tem "nada a perder senão sua existência tão ridiculamente nua". Frankl faz uma cativante descrição do misto de emoção e apatia. Primeiro surge uma fria e distante curiosidade de saber o próprio destino. Depois surgem estratégias de preservação do que resta de vida, apesar das chances de sobreviver serem pequenas. Fome, humilhação, medo e profunda raiva das injustiças são dominadas graças às imagens sempre presentes de pessoas amadas, graças ao sentimento religioso, a um amargo senso de humor e até mesmo graças às visões curativas de belezas naturais - uma árvore ou um pôr-do-sol.
Mas estes momentos de conforto não estabelecem o desejo de viver - a menos que ajudem o prisioneiro a ver um sentido maior no seu sofrimento aparentemente destituído de significado. É aqui que encontramos o tema central do existencialismo.
A vida é sofrimento, e sobreviver é encontrar significado na dor, se há, de algum modo, um propósito na vida, deve haver também um significado na dor e na morte. Mas pessoa alguma é capaz de dizer o que é este propósito. Cada um deve descobri-lo por si mesmo, e aceitar a responsabilidade que sua resposta implica. Se tiver êxito, continuará a crescer apesar de todas as indignidades. Frankl gosta de citar esta frase de Nietzsche:
"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como."
No campo de concentração todas as circunstâncias conspiram para fazer o prisioneiro perder seu controle. Todos os objetivos comuns da vida estão desfeitos. A única coisa que sobrou é "a última liberdade humana" - a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias". Esta liberdade última, reconhecida pelos antigos estóicos e pelos modernos existencialistas, assume um vívido significado na história de Frankl. Os prisioneiros eram apenas cidadãos comuns; mas alguns, pelo menos, comprovaram a capacidade humana de erguer-se acima do seu destino externo ao optarem por serem "dignos do seu sofrimento".
Naturalmente, o autor, como psicoterapeuta, deseja saber como se pode ajudar as pessoas a alcançar esta capacidade exclusiva dos humanos. Como se pode despertar num paciente o sentimento de que é responsável por algo perante a vida, por mais duras que sejam as circunstâncias? Frankl nos dá um emocionante relato de uma sessão terapêutica que teve com seus companheiros de prisão.
Respondendo a um pedido do editor, o Dr. Frankl acrescentou à sua autobiografia uma exposição breve, mas clara dos pontos básicos da logoterapia. Até agora a maior parte das publicações desta "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia" (as anteriores são as de Freud e Adler) tem aparecido em alemão. Assim, o leitor gostará de ter um texto adicional de Frankl complementando sua narrativa pessoal.
Ao contrário de muitos existencialistas europeus, Frankl não é nem pessimista nem anti-religioso. Ao contrário, para um escritor que enfrenta com coragem a ubiqüidade das forças do mal, ele assume uma visão surpreendentemente positiva da capacidade humana de transcender sua situação difícil e descobrir uma adequada verdade orientadora.
Recomendo sinceramente este pequeno livro, porque é uma obra-prima de narrativa dramática focalizada sobre os mais profundos problemas humanos. Tem méritos literários e filosóficos e fornece uma estimulante introdução a um dos mais significativos movimentos psicológicos de nossos dias.
Gordon W. Allport
Gordon W. Allport, professor de Psicologia na Universidade de Harvard, é um dos maiores escritores e professores nesta área no hemisfério norte. Publicou numerosos livros sobre Psicologia e foi o editor do Journal of Abnormal and Social Psychology. Foi principalmente através do trabalho pioneiro do Prof. Allport que a importante teoria de Frankl foi introduzida nos Estados Unidos. Além disso, é em grande parte graças a ele que o interesse em torno da logoterapia tem crescido exponencialmente neste país.
PREFÁCIO DO AUTOR · EDIÇÃO DE 1984
* Tradução de Carlos C. Aveline.
Este livro já viveu o suficiente para entrar na septuagésima terceira impressão em inglês - além de ter sido publicado em outras dezenove línguas. Apenas as edições em inglês venderam quase dois milhões e meio de exemplares.
Estes são os fatos, e é possível que eles sejam o motivo pelo qual os repórteres de jornais norte-americanos, e especialmente das estações de televisão, começam suas entrevistas, depois de listarem estes fatos, com a exclamação: "Dr. Frankl, seu livro se transformou num autêntico best-seller - como você se sente com tamanho sucesso?" Ao que costumo responder que, em primeiro lugar, vejo no status de best-seller do meu livro não tanto uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.
Certamente, algo mais pode ter contribuído para o impacto do livro: sua segunda parte, teórica, "Conceitos Fundamentais de Logoterapia", focaliza a lição que o leitor pode ter tirado da primeira parte, o relato autobiográfico ("Experiências num Campo de Concentração"), enquanto que esta serve como validação existencial das minhas teorias. Assim, as duas partes dão credibilidade uma à outra.
Não tinha nada disso em mente quando escrevi o livro em 1945. E o fiz no espaço de tempo de nove dias, com a firme determinação de ter o livro publicado anonimamente. Com efeito, a primeira impressão da versão original alemã não mostra meu nome na capa, apesar de, na última hora, eu haver finalmente cedido a meus amigos que estavam insistindo comigo para que deixasse o livro ser publicado com o meu nome pelos menos na página de rosto, onde vai o título. Inicialmente, no entanto, havia sido escrito com a absoluta convicção de que, como obra anônima, nunca daria fama literária a seu autor. Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplos concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis. E considerava que, se a tese fosse demonstrada numa situação tão extrema como a de um campo de concentração, meu livro encontraria um público. Consequentemente, me senti responsável pela tarefa de colocar no papel o que eu havia vivido. Pensava que poderia ser útil a pessoas que têm inclinação para o desespero.
Parece-me algo ao mesmo tempo estranho e notável o fato de que - entre as dúzias de livros que escrevi - precisamente este, que pretendia publicar anonimamente de modo que nunca desse reputação a seu autor, se transformasse num sucesso. Em conseqüência, não canso de alertar meus alunos, tanto na Europa como nos Estados Unidos: "Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão sofrer. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de um dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser. A felicidade deve acontecer naturalmente, e o mesmo ocorre com o sucesso; vocês precisam deixá-lo acontecer não se preocupando com ele. Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então vocês verão que a longo prazo - estou dizendo: a longo prazo! - o sucesso vai persegui-los, precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele."
Se o texto do livro a seguir transmite, prezado leitor, uma lição que pode ser tirada de Auschwitz, o texto do parágrafo acima pode dar uma lição tirada de um best-seller involuntário.
Quanto a esta nova edição, foi acrescentado um capítulo para atualizar as conclusões teóricas do livro. Tirado de uma palestra que pronunciei como presidente honorário do Terceiro Congresso Mundial de Logoterapia, no Auditorium Maximo da Universidade de Regensburg, na República Federal da Alemanha (em junho de 1983), ele forma agora o Pós-escrito de 1984 a este livro, e é intitulado "A Tese do Otimismo Trágico". O capítulo se refere a preocupações dos dias de hoje e como é possível "dizer sim à vida" apesar de todos os aspectos trágicos da existência humana. Espera-se que um certo "otimismo" com relação ao nosso futuro possa fluir das lições retiradas do nosso "trágico" passado.
V.E.F. - Viena,1983
I
EM BUSCA DE SENTIDO
Um Psicólogo no Campo de Concentração
Este livro não trata de fatos e acontecimentos externos, mas de experiências pessoais que milhares de prisioneiros viveram de muitas formas. É a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um dos seus sobreviventes. Não vamos descrever os grandes horrores (já bastante denunciados; embora nem sempre se acredite neles), mas sim as inúmeras pequenas torturas. Em outras palavras, tentarei responder à seguinte pergunta: "De que modo se refletia na cabeça do prisioneiro médio a vida cotidiana do campo de concentração?"
Diga-se de antemão que as experiências aqui relatadas não se relacionam tanto com acontecimentos nos campos de concentração grandes e famosos, mas com os que ocorreram em suas famigeradas filiais menores. É fato notório que justamente estes campos mais reduzidos eram autênticos locais de extermínio: Em pauta estará aqui não a paixão e morte dos grandes heróis e mártires, mas a das "pequenas" vítimas, a "pequena" morte da grande massa. Não vamos nos ocupar com aquilo que o Capo (* Prisioneiros que dispunham de privilégios (N. do E.).) nem este ou aquele prisioneiro pessoalmente importante sofreu ou tem para contar, mas vamos tratar da paixão do prisioneiro comum e desconhecido. Este último não usava o distintivo em forma de braçadeira a era desprezado pelos Capos. Enquanto ele passava fome até morrer de inanição, os Capos não passavam mal. Houve até alguns que nunca se alimentaram tão bem em sua vida. Do ponto de vista psicológico e caracteriológico, este tipo de pessoas deve ser encarado antes como os SS ou os guardas do campo de concentração. Os Capos tinham se assemelhado a estes, psicológica e sociologicamente, e com eles colaboravam. Muitas vezes eram mais rigorosos que a guarda do campo de concentração e eram os piores algozes do prisioneiro comum, chegando, por exemplo, a bater com mais violência que a própria SS. Afinal, de antemão somente eram escolhidos para Capos aqueles prisioneiros que se prestavam a este tipo de procedimento; e caso não fizessem jus ao que deles se esperava, eram imediatamente depostos.
Seleção ativa e passiva
O não-iniciado que olha de fora, sem nunca ter estado num campo de concentração, geralmente tem uma idéia errada da situação num campo destes. Imagina a vida lá dentro de modo sentimental, simplifica a realidade e não tem a menor idéia da feroz luta pela existência, mesmo entre os próprios prisioneiros e justamente nos campos menores. É violenta a luta pelo pão de cada dia e pela preservação e salvação da vida. Luta-se sem dó nem piedade pelos próprios interesses, sejam eles do indivíduo ou do seu grupo mais íntimo de amigos. Suponhamos, por exemplo, que seja iminente um transporte para levar certo número de internados para outro campo de concentração, segundo a versão oficial, mas há boas razões para supor que o destino seja a câmara de gás, porque o transporte de pessoas doentes e fracas representa uma seleção dos prisioneiros incapacitados de trabalhar, que deverão ser dizimados num campo maior, equipado com câmaras de gás e crematório. É neste momento que estoura a guerra de todos contra todos, ou melhor, de uns grupos e panelinhas contra outros. Cada qual procura proteger-se a si mesmo ou os que lhe são chegados, pô-los a salvo do transporte, "requisitá-los" no último momento da lista do transporte. Um fato está claro para todos: para aquele que for salvo desta maneira, outro terá que entrar na lista. Afinal de contas, o que importa é o número; o transporte terá que ser completado com determinado número de prisioneiros. Cada qual então representa pura e simplesmente uma cifra, pois na lista constam apenas os números dos prisioneiros. Afinal de contas é preciso considerar que em Auschwitz, por exemplo, quando o prisioneiro passa pela recepção, ele é despojado de todos os haveres e assim também acaba ficando sem nenhum documento, de modo que, quem quiser, pode simplesmente adotar um nome qualquer, alegar outra profissão, etc. Não são poucos os que apelam para este truque, por diversas razões. A única coisa que não dá margem a dúvidas e que interessa aos funcionários do campo de concentração é o número do prisioneiro, geralmente tatuado no corpo. Nenhum vigia ou supervisor tem a idéia de exigir que o prisioneiro se identifique pelo nome, quando quer denunciá-lo, o que geralmente acontece por alegação de "preguiça". Simplesmente verifica o número que todo prisioneiro precisa usar, costurado em determinados pontos da calça, do casaco e da capa, e o anotar (ocorrência muito temida por suas conseqüências).
Voltemos ao caso do transporte previsto. Nesta situação o prisioneiro não tem tempo nem disposição para se demorar em reflexões abstratas e morais. Cada qual só pensa em salvar a sua vida para os seus, que por ele esperam em casa, e preservar aqueles aos quais se sente ligado de alguma forma no campo de concentração. Por isso não hesitará em dar um jeito de incluir outra pessoa, outro "número" no transporte.
O que dissemos acima já dá para entender que os Capos eram resultado de uma espécie de seleção negativa: para esta função somente se prestavam os indivíduos mais brutais, embora felizmente tenha havido, é claro, exceções, as quais, deliberadamente, não vamos considerar aqui. Mas além dessa seleção ativa, efetuada, por assim dizer, pelo pessoal da SS, havia ainda uma seleção passiva. Existiam prisioneiros que viviam anos a fio em campos de concentração e eram transferidos de um para outro, passando às vezes por dezenas deles. Dentre eles, em geral, somente conseguiam manter-se com vida aqueles que não tinham escrúpulos nessa luta pela preservação da vida e que não hesitavam em usar métodos violentos ou mesmo em trair amigos. Todos nós que escapamos com vida por milhares e milhares de felizes coincidências ou milagres divinos - seja lá como quisermos chamá-los - sabemos e podemos dizer, sem hesitação, que os melhores não voltaram.
Relato do prisioneiro No 119104
Ensaio psicológico
Quando o ex-prisioneiro 119104 tenta descrever agora o que vivenciou como psicólogo no campo de concentração, é preciso observar de antemão que naturalmente ele não atuou ali como psicólogo, nem mesmo como médico (a não ser durante as últimas semanas). Cumpre salientar este detalhe, porque o importante não será mostrar o seu modo de vida pessoal, mas a maneira como precisamente o prisioneiro comum experimentou a vida no campo de concentração. Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro "comum", nada fui senão o simples nº 119104. A maior parte do tempo estive trabalhando em escavações e na construção de ferrovias. Enquanto alguns poucos colegas de profissão tiveram a sorte de ficar aplicando ataduras improvisadas com papel de lixo em postos de emergência dotados de algum tipo de calefação, eu, por exemplo, tive de cavar sozinho um túnel por baixo de uma estrada, para a colocação de canos d'água. Isto para mim não deixou de ser importante, pois como reconhecimento deste "serviço prestado" recebi dois dos assim chamados cupons-prêmio; pouco antes do Natal de 1944. Esses cupons eram emitidos pela firma de construção à qual éramos literalmente vendidos como escravos pelo campo de concentração. Em troca de cada dia de trabalho de um prisioneiro a firma tinha que pagar à administração do campo determinada quantia. Cada cupom-prêmio custava à firma 50 centavos e era resgatado a 5 cigarros no campo de concentração, geralmente apenas depois de passadas algumas semanas. De repente eu estava de posse de um valor equivalente a doze cigarros! Acontece que doze cigarros valiam doze sopas, e doze sopas realmente significam muitas vezes a salvação da morte por inanição, para duas semanas, ao menos. Somente um Capo, que tinha seus cupons-prêmio garantidos, é que podia dar-se ao luxo de fumar cigarros além do prisioneiro que dirigia alguma oficina ou depósito no almoxarifado e que recebia cigarros em troca de favores especiais. Todos os demais, os prisioneiros comuns, costumavam trocar por gêneros alimentícios aqueles cigarros que recebiam através de cupons-prêmio, isto é, por meio de serviços adicionais que representavam perigo de vida; a não ser que tivessem desistido de continuar vivendo, por terem perdido as esperanças, resolvendo então gozar os últimos dias de vida que ainda tinham pela frente. Quando um colega começava a fumar seus poucos cigarros, já sabíamos que havia perdido a esperança de poder continuar - e, de fato, então não agüentava mais.
O anterior foi justificar e explicar o título do livro. Vejamos agora que sentido tem propriamente um relato deste tipo.
Afinal de contas, já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue. Esse tem uma dupla intenção, procurando atingir tanto o leitor que conhece como o que não conhece por experiência própria o campo de concentração e a vida que ali se passa. Para o leitor que o conhece, procuraremos explicar suas experiências com os métodos científicos disponíveis no momento. Para os outros leitores, procuraremos tornar compreensível aquilo que para o Qrþelro já foi sentido e faltava ser explicado. O objetivo, então, é fazer o não-iniciado também compreender a experiência do prisioneiro e suas atitudes, e compreender também aquele número tão reduzido de ex-prisioneiros que sobreviveram, aceitando a sua atitude singular diante da vida – e que constitui uma novidade do ponto de vista psicológico.
Pois a atitude dos sobreviventes não é sempre fácil de compreender. Frequentemente ouvimos essas pessoas dizer: "Não gostamos de falar sobre a nossa experiência. Não é necessária nenhuma explicação para quem esteve num campo, e a quem não esteve jamais conseguiremos explicar o que havia dentro de nós, nem tampouco o que continuamos sentindo hoje."
É muito difícil fazer uma exposição metódica deste tipo de ensaio psicológico. A psicologia exige distanciamento científico. Será que a pessoa que experimentou a vida no campo de concentração teria o distanciamento necessário, durante a experiência, ou seja, na época em que precisou fazer as respectivas observações? Aquele que está de fora tem distanciamento, mas está distante demais do fluxo de vivência para poder colocar qualquer afirmação válida. Pode ser que quem esteve completamente envolvido tivesse muito pouco distanciamento para poder chegar a um julgamento bem objetivo. Ocorre, porém, que somente ele chega a conhecer a experiência em questão. Naturalmente não só é possível mas é até muito provável que o critério que aplica às coisas esteja distorcido. Isto será inevitável. Ser mister tentar excluir da descrição o aspecto particular e pessoal na medida do possível; mas, quando necessário, ter também a coragem para uma descrição de cunho pessoal da experiência. Porque, a rigor, o perigo de uma investigação psicológica semelhante não reside em apresentar traços pessoais, mas exclusivamente em tornar-se tendenciosa. Por isso deixarei que outros destilem mais uma vez o que está sendo apresentado, tirando do extrato dessas experiências subjetivas as suas conclusões impessoais em forma de teorias objetivas.
Poderia ser uma contribuição à psicologia do encarceramento, investigada depois da Primeira Guerra Mundial, e que nos mostrou a "doença do arame farpado" dos primeiros campos de concentração. Devemos ser gratos à Segunda Guerra Mundial por ela ter aumentado o nosso conhecimento sobre a "psicopatologia das massas" (para parafrasear o título de um livro bastante conhecido de LeBon). Ela nos agraciou com a "guerra de nervos" e com todas as experiências do campo de concentração.
Neste ponto quero mencionar que inicialmente não pretendia publicar este livro com o meu nome, mas apenas indicando o meu número de prisioneiro. A razão disto estava em minha aversão a todo e qualquer exibicionismo com relação às experiências vividas. O manuscrito já estava concluído quando me convenceram de que uma publicação anônima comprometeria o seu próprio valor, visto que a coragem da confissão eleva o valor do testemunho. Por amor à causa, portanto, desisti também de cortes posteriores, suplantando a aversão do exibicionismo com a coragem de confessar - superando-me assim a mim mesmo.
Numa primeira classificação da enorme quantidade de material de observações sobre si mesmo ou sobre outros, do total de experiências e vivências passadas em campos de concentração, poderíamos distinguir três frases nas reações psicológicas do prisioneiro ante a vida no campo de concentração: a fase da recepção no campo, a fase da dita vida no campo de concentração e a fase após a soltura, ou melhor, da libertação do campo.
A estação ferroviária de Auschwitz
A primeira fase se caracteriza pelo que se poderia chamar de choque de recepção. É preciso lembrar que o efeito de choque psicológico pode preceder à recepção formal, dependendo das circunstâncias. Este foi o caso, por exemplo, naquele transporte no qual eu mesmo cheguei a Auschwitz. Imagine-se a situação: o transporte de 1500 pessoas está a caminho há alguns dias e noites. Em cada vagão do trem se estiram 80 pessoas sobre a sua bagagem (seus últimos haveres). As mochilas, bolsas, etc. empilhadas impedem quase toda visão pelas janelas, deixando livre apenas um último vão na parte superior. Lá fora se divisa o primeiro clarão da aurora. Todos achávamos que o transporte se dirigia para alguma fábrica de armamento onde nos usariam para trabalhos forçados. Aparentemente o trem pára em algum lugar no meio da linha; ninguém sabe ao certo se ainda estamos na Silésia ou já na Polônia. O apito estridente da locomotiva causa arrepios, ecoando como um grito de socorro ante o pressentimento daquela massa de gente personificada pela máquina e por esta conduzida rumo a uma grande desgraça. O trem começa a manobrar frente a uma grande estação. De repente, do amontoado de gente esperando ansiosamente no vagão, surge um grito: "Olha a tabuleta: Auschwitz!" Naquele momento não houve coração que não se abalasse. Todos sabiam o que significava Auschwitz. Esse nome suscitava imagens confusas, mas horripilantes de câmaras de gás, fornos crematórios e execuções em massa. O trem avança lentamente, como que hesitando, como se quisesse dar aos poucos a má notícia a sua desgraçada carga humana: "Auschwitz". Agora a visão já está melhor: a aurora já permite ver a silhueta de um campo de concentração de colossais dimensões, estendendo-se por quilômetros à esquerda e à direita dos trilhos. Múltiplas cercas de arame farpado sem fim, torres de vigia, refletores e longas colunas de figuras humanas aos farrapos, cinzentas no alvorecer, que avançam exaustas pelas ruas desoladas do campo de concentração - sem que ninguém saiba para onde. Aqui e ali se ouve um apito de comando – e ninguém sabe para quê. Em alguns de nós, o terror fica estampado no rosto. Eu pensava estar vendo certo número de cadafalsos dos quais pendiam pessoas enforcadas. O horror tomava conta de mim, e isto era bom: segundo a segundo e passo a passo precisávamos nos defrontar com o horror.
Finalmente chegamos à estação de desembarque. Lá fora, nenhuma movimentação, ainda. De repente, brados de comando daquele jeito peculiar - estridente e rude - que de agora em diante ouviríamos sempre de novo em todos os campos de concentração, cujo som é semelhante ao último berro de um homem assassinado, com uma diferença: o som também é rouco e fanhoso, como se saísse da garganta de um homem que tem que gritar constantemente assim porque está sendo constantemente assassinado. . .
Abrem-se violentamente as portas do vagão e ele é invadido por um pequeno bando de prisioneiros trajando a roupa típica de reclusos, cabeça raspada, porém muito bem alimentados. Falam todas as línguas européias possíveis e irradiam todos uma jovialidade que neste momento e situação só pode mesmo ser grotesca: Como a pessoa que está prestes a se afogar e se agarra a uma palha, assim o meu arraigado otimismo, que desde então sempre me acomete justamente nas piores situações, se agarra a esse fato: nem é tão má a aparência dessa gente, eles estão visivelmente bem humorados e até rindo; quem diz que não chegarei também à situação relativamente boa e feliz desses prisioneiros? A psiquiatria conhece o quadro clínico da assim chamada ilusão de indulto: a pessoa condenada à morte, precisamente na hora de sua execução, começa a acreditar que ainda receberá o indulto justamente naquele último instante. Assim nós nos agarrávamos a esperanças e acreditávamos até o último instante que não seria nem poderia ser tão ruim. "Olha só o rosto rechonchudo e rosado desses prisioneiros!" Nem de longe sonhávamos que se tratava de uma "elite", um grupo de prisioneiros escolhido para receber os transportes dos milhares que, anos a fio, entravam diariamente pela estação de Auschwitz, isto é, para tomar conta de sua bagagem juntamente com os valores nela ocultos: utensílios difíceis de conseguir naquela época e jóias contrabandeadas. Auschwitz naquele tempo era, sem dúvida,um centro singular na Europa da última fase da guerra: a quantidade de ouro, prata, platina e brilhantes que ali se encontrava, não só nos gigantescos depósitos, mas ainda em mãos do pessoal da SS bem como do grupo de prisioneiros que nos recebia, certamente não tinha paralelo. Certa vez, éramos 1100 prisioneiros num único barracão (destinado a abrigar no máximo 200), esperando pelo transporte para campos menores, sentados, acocorados ou de pé, no chão de terra, passando frio e com fome. Não havia lugar para todos se sentarem, menos ainda para se deitarem. Num período de quatro dias recebemos uma única vez uma lasca de pão (de 150 gramas). Naquela ocasião presenciei, por exemplo, uma conversa em que o encarregado do barracão negociava um prendedor de gravata, de platina, encravado de brilhantes, com um prisioneiro daquele grupo de elite. O grosso desses objetos, entretanto, acabava sendo trocado por aguardente que desse para divertir-se uma noite. Só sei de uma coisa: esses prisioneiros de muitos anos precisavam de álcool. Quem vai censurar uma pessoa que se entorpece em semelhante situação interior e exterior? Para não falar dos prisioneiros postos a trabalhar nas câmaras de gás e no crematório, e que sabiam perfeitamente que, passando o seu turno, seriam substituídos por outro grupo, e que seguiriam eles mesmos um dia o caminho daquelas vítimas cujos carrascos eram forçados a ser agora. Esse grupo recebia álcool praticamente à vontade até do pessoal da SS.
A primeira seleção
Eu e praticamente todos os integrantes do nosso transporte estávamos, portanto, tomados por essa ilusão de indulto que acredita que tudo ainda pode sair bem. Pois ainda não tínhamos condições de entender a razão daquilo que ali se desenrolava; somente à noite é que iríamos entender. Mandaram-nos deixar toda a bagagem num vagão, desembarcar e formar uma fila de homens e outra de mulheres, para então desfilar perante um oficial superior da SS. Curiosamente, tive coragem de levar comigo minha sacola, escondida da melhor maneira possível debaixo da capa. Vejo, então, que a minha coluna se dirige, homem por homem, em direção ao oficial da SS. Fico calculando: se ele perceber o peso da sacola que me puxa para o lado haverá no mínimo uma bofetada que me fará voar na lama; isto eu já conhecia de outra ocasião. . . Mais por instinto, quanto mais me aproximo daquele homem, deixo meu corpo cada vez mais ereto, para que ele não perceba que estou carregando um peso. Ei-lo agora à minha frente: alto, esbelto, elegante, num uniforme perfeito e reluzente - uma pessoa bem trajada e cuidada, muito distante das nossas tristes figuras de rosto sonolento e aparência decaída. Ele se sente muito à vontade. Apóia o cotovelo direito na mão esquerda, e com a mão direita erguida executa um leve aceno com o indicador, ora para a direita, ora para a esquerda. Nenhum de nós tinha a menor idéia do significado sinistro daquele pequeno gesto com o dedo - ora para a esquerda, ora para a direita, com freqüência muito maior para a direita. Chega a minha vez. Alguém me sussurrou que para a direita (olhando da nossa direção) ia-se para o trabalho; para a esquerda, para um campo de doentes e incapacitados para o trabalho. Simplesmente deixo os fatos acontecerem. É a primeira vez que faço isso. Mas tomarei esta atitude muitas vezes de agora em diante. Minha sacola me puxa para a esquerda, mas me aprumo e fico ereto. O homem da SS me olha criticamente. Parece hesitar, põe as duas mãos nos meus ombros; faço um esforço para assumir uma postura do tipo militar. Fico firme e ereto: lentamente, ele faz girar os meus ombros - e lá me vou para a direita.
À noite ficamos sabendo o significado desse jogo com o dedo indicador: era a primeira seleção! A primeira decisão sobre ser ou não ser. Para a imensa maioria do nosso transporte, cerca de 90%, foi a sentença de morte. Ela foi levada a cabo em poucas horas. Quem era mandado para a esquerda marchava diretamente da rampa da estação para um dos prédios do crematório, onde - segundo me contaram pessoas que ali trabalhavam - havia letreiros em diversas línguas européias que caracterizavam o prédio como casa de banhos. Então todos os participantes do transporte mandados para a esquerda recebiam um pedaço de sabão marca "Rif". Sobre o que se desenrolava dali em diante posso calar-me, depois que relatos mais autênticos já o tornaram conhecido. Nós, a minoria do transporte, ficamos sabendo naquela mesma noite. Perguntei a companheiros que já estavam há mais tempo no campo de concentração onde poderia ter ido parar meu colega e amigo P. - "Ele foi mandado para o outro lado?" - "Sim", respondi. - "Então podes vê-lo ali", disseram. "Onde?" Uma mão aponta para uma chaminé distante algumas centenas de metros, da qual sobe assustadora e alta labareda pelo imenso e cinzento céu polonês, para se extinguir em tenebrosa nuvem de fumaça. "O que há ali?" - "Ali o teu amigo está voando para o céu", é a resposta grosseira. Continuo sem entender; mas logo começo a compreender, assim que me "iniciam" no assunto.
Tudo isto já contei por antecipação. Sob o ponto de vista psicológico, ainda tínhamos um caminho muito longo a percorrer, desde o alvorecer na estação até adormecermos pela primeira vez no campo de concentração. Nossa coluna foi obrigada correr desde a estação, escoltada por um pelotão da guarda SS com o fuzil engatilhado, passando pelos corredores de arame farpado carregado de alta tensão, até o banho de desinfecção - para nós, eleitos na primeira seleção, ao menos um banho real. Mais uma vez era alimentada a nossa ilusão de indulto: a SS até parecia muito afável! Mas logo percebemos que eram agradáveis conosco enquanto viam relógios em nossos pulsos, para, em tom muito cordial, nos persuadir a entregá-los, já que de qualquer forma teríamos que entregar tudo que ainda tínhamos conosco. Cada um de nós pensava consigo mesmo: perdido por perdido, se essa pessoa relativamente amigável receber o relógio em caráter particular - por que não? Quem sabe, um dia poderá prestar-me algum favor.
PREFÁCIO · EDIÇÃO NORTE AMERICANA - de 1984
O escritor e psiquiatra Viktor Frankl costuma perguntar a seus pacientes quando estão sofrendo muitos tormentos grandes e pequenos "Por que não opta pelo suicídio?" É a partir das respostas a esta pergunta que ele encontra, freqüentemente, as linhas centrais da psicoterapia a ser usada. Num caso, a pessoa se agarra ao amor pelos filhos; em outro, há um talento para ser usado, e, num terceiro caso, velhas recordações que vale a pena preservar. Costurar estes débeis filamentos de uma vida semi-destruída e construir com eles, um padrão firme, com um significado e uma responsabilidade - este é o objetivo e o desafio da logoterapia, versão da moderna análise existencial elaborada pelo próprio Dr. Frankl.
Neste livro, o Dr. Frankl descreve a experiência que o levou à descoberta da logoterapia. Prisioneiro durante longo tempo em campos de concentração, onde seres humanos eram tratados de modo pior do que se fossem animais ele se viu reduzido aos limites entre o ser e o não-ser. O pai, a mãe, o irmão e a esposa de Viktor Frankl morreram em campos de concentração ou em crematórios, e exceto sua irmã, toda sua família morreu nos campos de concentração. Como foi que ele - tendo perdido tudo o que era seu, com todos os seus valores destruídos, sofrendo de fome, do frio e da brutalidade, esperando a cada momento a sua exterminação final - conseguiu encarar a vida como algo que valia a pena preservar?
Um psiquiatra que passou pessoalmente por tamanha experiência certamente tem algo a dizer. Ele - mais que ninguém - pode ser capaz de ver a nossa condição humana com sabedoria e compaixão. As palavras do Dr. Frankl têm um acento profundamente honesto, porque estão baseadas em experiências tão profundas que impedem qualquer distorção. O que ele tem a dizer ganha em prestígio devido à sua atual posição na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena e por causa do renome das clínicas logoterapêuticas que hoje estão funcionando em muitos países, segundo o padrão da famosa Policlínica Neurológica de Viktor Frankl em Viena.
É impossível evitar a comparação entre os enfoques terapêutico e teórico de Frankl e o trabalho do seu predecessor, Sigmund Freud. Os dois se preocuparam basicamente com a natureza e a cura das neuroses. Freud encontra a raiz destas desordens angustiantes na ansiedade causada por motivos inconscientes e conflitantes. Frankl distingue várias formas de neurose e atribui algumas delas (as neuroses orgânicas) à incapacidade de encontrar um significado e um sentido de responsabilidade em sua existência. Freud acentua as frustrações da vida sexual; Frankl, a frustração do desejo de sentido e significado. Na Europa, hoje, há uma forte tendência a um distanciamento de Freud e a uma aproximação da análise existencial, que assume várias formas - entre elas a escola de logoterapia. Frankl não repudia a postura de Freud - e isto é típico da sua atitude tolerante - mas constrói seu trabalho de bom grado sobre as contribuições freudianas. Tampouco ataca as outras formas de terapia existencial, mas aceita com satisfação o parentesco da logoterapia com elas.
Esta narrativa, embora breve, é muito bem construída e atraente. Por duas vezes eu a li sem levantar uma só vez da poltrona, incapaz de me afastar da seqüência de suas palavras.
Em algum momento, depois da metade da história, o Dr. Frankl introduz sua própria filosofia logoterapêutica, mas o faz de modo tão suave ao longo da narrativa que só depois de terminar a leitura é que o leitor percebe tratar-se de um profundo ensaio, e não apenas de mais uma história sobre as brutalidades dos campos de concentração.
O leitor pode aprender muito com este fragmento autobiográfico. Ele percebe o que um ser humano faz quando subitamente compreende que não tem "nada a perder senão sua existência tão ridiculamente nua". Frankl faz uma cativante descrição do misto de emoção e apatia. Primeiro surge uma fria e distante curiosidade de saber o próprio destino. Depois surgem estratégias de preservação do que resta de vida, apesar das chances de sobreviver serem pequenas. Fome, humilhação, medo e profunda raiva das injustiças são dominadas graças às imagens sempre presentes de pessoas amadas, graças ao sentimento religioso, a um amargo senso de humor e até mesmo graças às visões curativas de belezas naturais - uma árvore ou um pôr-do-sol.
Mas estes momentos de conforto não estabelecem o desejo de viver - a menos que ajudem o prisioneiro a ver um sentido maior no seu sofrimento aparentemente destituído de significado. É aqui que encontramos o tema central do existencialismo.
A vida é sofrimento, e sobreviver é encontrar significado na dor, se há, de algum modo, um propósito na vida, deve haver também um significado na dor e na morte. Mas pessoa alguma é capaz de dizer o que é este propósito. Cada um deve descobri-lo por si mesmo, e aceitar a responsabilidade que sua resposta implica. Se tiver êxito, continuará a crescer apesar de todas as indignidades. Frankl gosta de citar esta frase de Nietzsche:
"Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como."
No campo de concentração todas as circunstâncias conspiram para fazer o prisioneiro perder seu controle. Todos os objetivos comuns da vida estão desfeitos. A única coisa que sobrou é "a última liberdade humana" - a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias". Esta liberdade última, reconhecida pelos antigos estóicos e pelos modernos existencialistas, assume um vívido significado na história de Frankl. Os prisioneiros eram apenas cidadãos comuns; mas alguns, pelo menos, comprovaram a capacidade humana de erguer-se acima do seu destino externo ao optarem por serem "dignos do seu sofrimento".
Naturalmente, o autor, como psicoterapeuta, deseja saber como se pode ajudar as pessoas a alcançar esta capacidade exclusiva dos humanos. Como se pode despertar num paciente o sentimento de que é responsável por algo perante a vida, por mais duras que sejam as circunstâncias? Frankl nos dá um emocionante relato de uma sessão terapêutica que teve com seus companheiros de prisão.
Respondendo a um pedido do editor, o Dr. Frankl acrescentou à sua autobiografia uma exposição breve, mas clara dos pontos básicos da logoterapia. Até agora a maior parte das publicações desta "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia" (as anteriores são as de Freud e Adler) tem aparecido em alemão. Assim, o leitor gostará de ter um texto adicional de Frankl complementando sua narrativa pessoal.
Ao contrário de muitos existencialistas europeus, Frankl não é nem pessimista nem anti-religioso. Ao contrário, para um escritor que enfrenta com coragem a ubiqüidade das forças do mal, ele assume uma visão surpreendentemente positiva da capacidade humana de transcender sua situação difícil e descobrir uma adequada verdade orientadora.
Recomendo sinceramente este pequeno livro, porque é uma obra-prima de narrativa dramática focalizada sobre os mais profundos problemas humanos. Tem méritos literários e filosóficos e fornece uma estimulante introdução a um dos mais significativos movimentos psicológicos de nossos dias.
Gordon W. Allport
Gordon W. Allport, professor de Psicologia na Universidade de Harvard, é um dos maiores escritores e professores nesta área no hemisfério norte. Publicou numerosos livros sobre Psicologia e foi o editor do Journal of Abnormal and Social Psychology. Foi principalmente através do trabalho pioneiro do Prof. Allport que a importante teoria de Frankl foi introduzida nos Estados Unidos. Além disso, é em grande parte graças a ele que o interesse em torno da logoterapia tem crescido exponencialmente neste país.
PREFÁCIO DO AUTOR · EDIÇÃO DE 1984
* Tradução de Carlos C. Aveline.
Este livro já viveu o suficiente para entrar na septuagésima terceira impressão em inglês - além de ter sido publicado em outras dezenove línguas. Apenas as edições em inglês venderam quase dois milhões e meio de exemplares.
Estes são os fatos, e é possível que eles sejam o motivo pelo qual os repórteres de jornais norte-americanos, e especialmente das estações de televisão, começam suas entrevistas, depois de listarem estes fatos, com a exclamação: "Dr. Frankl, seu livro se transformou num autêntico best-seller - como você se sente com tamanho sucesso?" Ao que costumo responder que, em primeiro lugar, vejo no status de best-seller do meu livro não tanto uma conquista e realização da minha parte, mas como uma expressão da miséria dos nossos tempos: se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que as está queimando por dentro.
Certamente, algo mais pode ter contribuído para o impacto do livro: sua segunda parte, teórica, "Conceitos Fundamentais de Logoterapia", focaliza a lição que o leitor pode ter tirado da primeira parte, o relato autobiográfico ("Experiências num Campo de Concentração"), enquanto que esta serve como validação existencial das minhas teorias. Assim, as duas partes dão credibilidade uma à outra.
Não tinha nada disso em mente quando escrevi o livro em 1945. E o fiz no espaço de tempo de nove dias, com a firme determinação de ter o livro publicado anonimamente. Com efeito, a primeira impressão da versão original alemã não mostra meu nome na capa, apesar de, na última hora, eu haver finalmente cedido a meus amigos que estavam insistindo comigo para que deixasse o livro ser publicado com o meu nome pelos menos na página de rosto, onde vai o título. Inicialmente, no entanto, havia sido escrito com a absoluta convicção de que, como obra anônima, nunca daria fama literária a seu autor. Havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de exemplos concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis. E considerava que, se a tese fosse demonstrada numa situação tão extrema como a de um campo de concentração, meu livro encontraria um público. Consequentemente, me senti responsável pela tarefa de colocar no papel o que eu havia vivido. Pensava que poderia ser útil a pessoas que têm inclinação para o desespero.
Parece-me algo ao mesmo tempo estranho e notável o fato de que - entre as dúzias de livros que escrevi - precisamente este, que pretendia publicar anonimamente de modo que nunca desse reputação a seu autor, se transformasse num sucesso. Em conseqüência, não canso de alertar meus alunos, tanto na Europa como nos Estados Unidos: "Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão sofrer. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de um dedicação pessoal a uma causa maior que a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser. A felicidade deve acontecer naturalmente, e o mesmo ocorre com o sucesso; vocês precisam deixá-lo acontecer não se preocupando com ele. Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então vocês verão que a longo prazo - estou dizendo: a longo prazo! - o sucesso vai persegui-los, precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele."
Se o texto do livro a seguir transmite, prezado leitor, uma lição que pode ser tirada de Auschwitz, o texto do parágrafo acima pode dar uma lição tirada de um best-seller involuntário.
Quanto a esta nova edição, foi acrescentado um capítulo para atualizar as conclusões teóricas do livro. Tirado de uma palestra que pronunciei como presidente honorário do Terceiro Congresso Mundial de Logoterapia, no Auditorium Maximo da Universidade de Regensburg, na República Federal da Alemanha (em junho de 1983), ele forma agora o Pós-escrito de 1984 a este livro, e é intitulado "A Tese do Otimismo Trágico". O capítulo se refere a preocupações dos dias de hoje e como é possível "dizer sim à vida" apesar de todos os aspectos trágicos da existência humana. Espera-se que um certo "otimismo" com relação ao nosso futuro possa fluir das lições retiradas do nosso "trágico" passado.
V.E.F. - Viena,1983
I
EM BUSCA DE SENTIDO
Um Psicólogo no Campo de Concentração
Este livro não trata de fatos e acontecimentos externos, mas de experiências pessoais que milhares de prisioneiros viveram de muitas formas. É a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um dos seus sobreviventes. Não vamos descrever os grandes horrores (já bastante denunciados; embora nem sempre se acredite neles), mas sim as inúmeras pequenas torturas. Em outras palavras, tentarei responder à seguinte pergunta: "De que modo se refletia na cabeça do prisioneiro médio a vida cotidiana do campo de concentração?"
Diga-se de antemão que as experiências aqui relatadas não se relacionam tanto com acontecimentos nos campos de concentração grandes e famosos, mas com os que ocorreram em suas famigeradas filiais menores. É fato notório que justamente estes campos mais reduzidos eram autênticos locais de extermínio: Em pauta estará aqui não a paixão e morte dos grandes heróis e mártires, mas a das "pequenas" vítimas, a "pequena" morte da grande massa. Não vamos nos ocupar com aquilo que o Capo (* Prisioneiros que dispunham de privilégios (N. do E.).) nem este ou aquele prisioneiro pessoalmente importante sofreu ou tem para contar, mas vamos tratar da paixão do prisioneiro comum e desconhecido. Este último não usava o distintivo em forma de braçadeira a era desprezado pelos Capos. Enquanto ele passava fome até morrer de inanição, os Capos não passavam mal. Houve até alguns que nunca se alimentaram tão bem em sua vida. Do ponto de vista psicológico e caracteriológico, este tipo de pessoas deve ser encarado antes como os SS ou os guardas do campo de concentração. Os Capos tinham se assemelhado a estes, psicológica e sociologicamente, e com eles colaboravam. Muitas vezes eram mais rigorosos que a guarda do campo de concentração e eram os piores algozes do prisioneiro comum, chegando, por exemplo, a bater com mais violência que a própria SS. Afinal, de antemão somente eram escolhidos para Capos aqueles prisioneiros que se prestavam a este tipo de procedimento; e caso não fizessem jus ao que deles se esperava, eram imediatamente depostos.
Seleção ativa e passiva
O não-iniciado que olha de fora, sem nunca ter estado num campo de concentração, geralmente tem uma idéia errada da situação num campo destes. Imagina a vida lá dentro de modo sentimental, simplifica a realidade e não tem a menor idéia da feroz luta pela existência, mesmo entre os próprios prisioneiros e justamente nos campos menores. É violenta a luta pelo pão de cada dia e pela preservação e salvação da vida. Luta-se sem dó nem piedade pelos próprios interesses, sejam eles do indivíduo ou do seu grupo mais íntimo de amigos. Suponhamos, por exemplo, que seja iminente um transporte para levar certo número de internados para outro campo de concentração, segundo a versão oficial, mas há boas razões para supor que o destino seja a câmara de gás, porque o transporte de pessoas doentes e fracas representa uma seleção dos prisioneiros incapacitados de trabalhar, que deverão ser dizimados num campo maior, equipado com câmaras de gás e crematório. É neste momento que estoura a guerra de todos contra todos, ou melhor, de uns grupos e panelinhas contra outros. Cada qual procura proteger-se a si mesmo ou os que lhe são chegados, pô-los a salvo do transporte, "requisitá-los" no último momento da lista do transporte. Um fato está claro para todos: para aquele que for salvo desta maneira, outro terá que entrar na lista. Afinal de contas, o que importa é o número; o transporte terá que ser completado com determinado número de prisioneiros. Cada qual então representa pura e simplesmente uma cifra, pois na lista constam apenas os números dos prisioneiros. Afinal de contas é preciso considerar que em Auschwitz, por exemplo, quando o prisioneiro passa pela recepção, ele é despojado de todos os haveres e assim também acaba ficando sem nenhum documento, de modo que, quem quiser, pode simplesmente adotar um nome qualquer, alegar outra profissão, etc. Não são poucos os que apelam para este truque, por diversas razões. A única coisa que não dá margem a dúvidas e que interessa aos funcionários do campo de concentração é o número do prisioneiro, geralmente tatuado no corpo. Nenhum vigia ou supervisor tem a idéia de exigir que o prisioneiro se identifique pelo nome, quando quer denunciá-lo, o que geralmente acontece por alegação de "preguiça". Simplesmente verifica o número que todo prisioneiro precisa usar, costurado em determinados pontos da calça, do casaco e da capa, e o anotar (ocorrência muito temida por suas conseqüências).
Voltemos ao caso do transporte previsto. Nesta situação o prisioneiro não tem tempo nem disposição para se demorar em reflexões abstratas e morais. Cada qual só pensa em salvar a sua vida para os seus, que por ele esperam em casa, e preservar aqueles aos quais se sente ligado de alguma forma no campo de concentração. Por isso não hesitará em dar um jeito de incluir outra pessoa, outro "número" no transporte.
O que dissemos acima já dá para entender que os Capos eram resultado de uma espécie de seleção negativa: para esta função somente se prestavam os indivíduos mais brutais, embora felizmente tenha havido, é claro, exceções, as quais, deliberadamente, não vamos considerar aqui. Mas além dessa seleção ativa, efetuada, por assim dizer, pelo pessoal da SS, havia ainda uma seleção passiva. Existiam prisioneiros que viviam anos a fio em campos de concentração e eram transferidos de um para outro, passando às vezes por dezenas deles. Dentre eles, em geral, somente conseguiam manter-se com vida aqueles que não tinham escrúpulos nessa luta pela preservação da vida e que não hesitavam em usar métodos violentos ou mesmo em trair amigos. Todos nós que escapamos com vida por milhares e milhares de felizes coincidências ou milagres divinos - seja lá como quisermos chamá-los - sabemos e podemos dizer, sem hesitação, que os melhores não voltaram.
Relato do prisioneiro No 119104
Ensaio psicológico
Quando o ex-prisioneiro 119104 tenta descrever agora o que vivenciou como psicólogo no campo de concentração, é preciso observar de antemão que naturalmente ele não atuou ali como psicólogo, nem mesmo como médico (a não ser durante as últimas semanas). Cumpre salientar este detalhe, porque o importante não será mostrar o seu modo de vida pessoal, mas a maneira como precisamente o prisioneiro comum experimentou a vida no campo de concentração. Não é sem orgulho que digo não ter sido mais que um prisioneiro "comum", nada fui senão o simples nº 119104. A maior parte do tempo estive trabalhando em escavações e na construção de ferrovias. Enquanto alguns poucos colegas de profissão tiveram a sorte de ficar aplicando ataduras improvisadas com papel de lixo em postos de emergência dotados de algum tipo de calefação, eu, por exemplo, tive de cavar sozinho um túnel por baixo de uma estrada, para a colocação de canos d'água. Isto para mim não deixou de ser importante, pois como reconhecimento deste "serviço prestado" recebi dois dos assim chamados cupons-prêmio; pouco antes do Natal de 1944. Esses cupons eram emitidos pela firma de construção à qual éramos literalmente vendidos como escravos pelo campo de concentração. Em troca de cada dia de trabalho de um prisioneiro a firma tinha que pagar à administração do campo determinada quantia. Cada cupom-prêmio custava à firma 50 centavos e era resgatado a 5 cigarros no campo de concentração, geralmente apenas depois de passadas algumas semanas. De repente eu estava de posse de um valor equivalente a doze cigarros! Acontece que doze cigarros valiam doze sopas, e doze sopas realmente significam muitas vezes a salvação da morte por inanição, para duas semanas, ao menos. Somente um Capo, que tinha seus cupons-prêmio garantidos, é que podia dar-se ao luxo de fumar cigarros além do prisioneiro que dirigia alguma oficina ou depósito no almoxarifado e que recebia cigarros em troca de favores especiais. Todos os demais, os prisioneiros comuns, costumavam trocar por gêneros alimentícios aqueles cigarros que recebiam através de cupons-prêmio, isto é, por meio de serviços adicionais que representavam perigo de vida; a não ser que tivessem desistido de continuar vivendo, por terem perdido as esperanças, resolvendo então gozar os últimos dias de vida que ainda tinham pela frente. Quando um colega começava a fumar seus poucos cigarros, já sabíamos que havia perdido a esperança de poder continuar - e, de fato, então não agüentava mais.
O anterior foi justificar e explicar o título do livro. Vejamos agora que sentido tem propriamente um relato deste tipo.
Afinal de contas, já foi publicado um número mais que suficiente de relatos contando os fatos nos campos de concentração. Aqui todavia, apresentaremos os fatos apenas na medida em que eles desencadearam uma experiência na própria pessoa; é para a experiência pessoal em si que se voltará o estudo psicológico que segue. Esse tem uma dupla intenção, procurando atingir tanto o leitor que conhece como o que não conhece por experiência própria o campo de concentração e a vida que ali se passa. Para o leitor que o conhece, procuraremos explicar suas experiências com os métodos científicos disponíveis no momento. Para os outros leitores, procuraremos tornar compreensível aquilo que para o Qrþelro já foi sentido e faltava ser explicado. O objetivo, então, é fazer o não-iniciado também compreender a experiência do prisioneiro e suas atitudes, e compreender também aquele número tão reduzido de ex-prisioneiros que sobreviveram, aceitando a sua atitude singular diante da vida – e que constitui uma novidade do ponto de vista psicológico.
Pois a atitude dos sobreviventes não é sempre fácil de compreender. Frequentemente ouvimos essas pessoas dizer: "Não gostamos de falar sobre a nossa experiência. Não é necessária nenhuma explicação para quem esteve num campo, e a quem não esteve jamais conseguiremos explicar o que havia dentro de nós, nem tampouco o que continuamos sentindo hoje."
É muito difícil fazer uma exposição metódica deste tipo de ensaio psicológico. A psicologia exige distanciamento científico. Será que a pessoa que experimentou a vida no campo de concentração teria o distanciamento necessário, durante a experiência, ou seja, na época em que precisou fazer as respectivas observações? Aquele que está de fora tem distanciamento, mas está distante demais do fluxo de vivência para poder colocar qualquer afirmação válida. Pode ser que quem esteve completamente envolvido tivesse muito pouco distanciamento para poder chegar a um julgamento bem objetivo. Ocorre, porém, que somente ele chega a conhecer a experiência em questão. Naturalmente não só é possível mas é até muito provável que o critério que aplica às coisas esteja distorcido. Isto será inevitável. Ser mister tentar excluir da descrição o aspecto particular e pessoal na medida do possível; mas, quando necessário, ter também a coragem para uma descrição de cunho pessoal da experiência. Porque, a rigor, o perigo de uma investigação psicológica semelhante não reside em apresentar traços pessoais, mas exclusivamente em tornar-se tendenciosa. Por isso deixarei que outros destilem mais uma vez o que está sendo apresentado, tirando do extrato dessas experiências subjetivas as suas conclusões impessoais em forma de teorias objetivas.
Poderia ser uma contribuição à psicologia do encarceramento, investigada depois da Primeira Guerra Mundial, e que nos mostrou a "doença do arame farpado" dos primeiros campos de concentração. Devemos ser gratos à Segunda Guerra Mundial por ela ter aumentado o nosso conhecimento sobre a "psicopatologia das massas" (para parafrasear o título de um livro bastante conhecido de LeBon). Ela nos agraciou com a "guerra de nervos" e com todas as experiências do campo de concentração.
Neste ponto quero mencionar que inicialmente não pretendia publicar este livro com o meu nome, mas apenas indicando o meu número de prisioneiro. A razão disto estava em minha aversão a todo e qualquer exibicionismo com relação às experiências vividas. O manuscrito já estava concluído quando me convenceram de que uma publicação anônima comprometeria o seu próprio valor, visto que a coragem da confissão eleva o valor do testemunho. Por amor à causa, portanto, desisti também de cortes posteriores, suplantando a aversão do exibicionismo com a coragem de confessar - superando-me assim a mim mesmo.
Numa primeira classificação da enorme quantidade de material de observações sobre si mesmo ou sobre outros, do total de experiências e vivências passadas em campos de concentração, poderíamos distinguir três frases nas reações psicológicas do prisioneiro ante a vida no campo de concentração: a fase da recepção no campo, a fase da dita vida no campo de concentração e a fase após a soltura, ou melhor, da libertação do campo.
A estação ferroviária de Auschwitz
A primeira fase se caracteriza pelo que se poderia chamar de choque de recepção. É preciso lembrar que o efeito de choque psicológico pode preceder à recepção formal, dependendo das circunstâncias. Este foi o caso, por exemplo, naquele transporte no qual eu mesmo cheguei a Auschwitz. Imagine-se a situação: o transporte de 1500 pessoas está a caminho há alguns dias e noites. Em cada vagão do trem se estiram 80 pessoas sobre a sua bagagem (seus últimos haveres). As mochilas, bolsas, etc. empilhadas impedem quase toda visão pelas janelas, deixando livre apenas um último vão na parte superior. Lá fora se divisa o primeiro clarão da aurora. Todos achávamos que o transporte se dirigia para alguma fábrica de armamento onde nos usariam para trabalhos forçados. Aparentemente o trem pára em algum lugar no meio da linha; ninguém sabe ao certo se ainda estamos na Silésia ou já na Polônia. O apito estridente da locomotiva causa arrepios, ecoando como um grito de socorro ante o pressentimento daquela massa de gente personificada pela máquina e por esta conduzida rumo a uma grande desgraça. O trem começa a manobrar frente a uma grande estação. De repente, do amontoado de gente esperando ansiosamente no vagão, surge um grito: "Olha a tabuleta: Auschwitz!" Naquele momento não houve coração que não se abalasse. Todos sabiam o que significava Auschwitz. Esse nome suscitava imagens confusas, mas horripilantes de câmaras de gás, fornos crematórios e execuções em massa. O trem avança lentamente, como que hesitando, como se quisesse dar aos poucos a má notícia a sua desgraçada carga humana: "Auschwitz". Agora a visão já está melhor: a aurora já permite ver a silhueta de um campo de concentração de colossais dimensões, estendendo-se por quilômetros à esquerda e à direita dos trilhos. Múltiplas cercas de arame farpado sem fim, torres de vigia, refletores e longas colunas de figuras humanas aos farrapos, cinzentas no alvorecer, que avançam exaustas pelas ruas desoladas do campo de concentração - sem que ninguém saiba para onde. Aqui e ali se ouve um apito de comando – e ninguém sabe para quê. Em alguns de nós, o terror fica estampado no rosto. Eu pensava estar vendo certo número de cadafalsos dos quais pendiam pessoas enforcadas. O horror tomava conta de mim, e isto era bom: segundo a segundo e passo a passo precisávamos nos defrontar com o horror.
Finalmente chegamos à estação de desembarque. Lá fora, nenhuma movimentação, ainda. De repente, brados de comando daquele jeito peculiar - estridente e rude - que de agora em diante ouviríamos sempre de novo em todos os campos de concentração, cujo som é semelhante ao último berro de um homem assassinado, com uma diferença: o som também é rouco e fanhoso, como se saísse da garganta de um homem que tem que gritar constantemente assim porque está sendo constantemente assassinado. . .
Abrem-se violentamente as portas do vagão e ele é invadido por um pequeno bando de prisioneiros trajando a roupa típica de reclusos, cabeça raspada, porém muito bem alimentados. Falam todas as línguas européias possíveis e irradiam todos uma jovialidade que neste momento e situação só pode mesmo ser grotesca: Como a pessoa que está prestes a se afogar e se agarra a uma palha, assim o meu arraigado otimismo, que desde então sempre me acomete justamente nas piores situações, se agarra a esse fato: nem é tão má a aparência dessa gente, eles estão visivelmente bem humorados e até rindo; quem diz que não chegarei também à situação relativamente boa e feliz desses prisioneiros? A psiquiatria conhece o quadro clínico da assim chamada ilusão de indulto: a pessoa condenada à morte, precisamente na hora de sua execução, começa a acreditar que ainda receberá o indulto justamente naquele último instante. Assim nós nos agarrávamos a esperanças e acreditávamos até o último instante que não seria nem poderia ser tão ruim. "Olha só o rosto rechonchudo e rosado desses prisioneiros!" Nem de longe sonhávamos que se tratava de uma "elite", um grupo de prisioneiros escolhido para receber os transportes dos milhares que, anos a fio, entravam diariamente pela estação de Auschwitz, isto é, para tomar conta de sua bagagem juntamente com os valores nela ocultos: utensílios difíceis de conseguir naquela época e jóias contrabandeadas. Auschwitz naquele tempo era, sem dúvida,um centro singular na Europa da última fase da guerra: a quantidade de ouro, prata, platina e brilhantes que ali se encontrava, não só nos gigantescos depósitos, mas ainda em mãos do pessoal da SS bem como do grupo de prisioneiros que nos recebia, certamente não tinha paralelo. Certa vez, éramos 1100 prisioneiros num único barracão (destinado a abrigar no máximo 200), esperando pelo transporte para campos menores, sentados, acocorados ou de pé, no chão de terra, passando frio e com fome. Não havia lugar para todos se sentarem, menos ainda para se deitarem. Num período de quatro dias recebemos uma única vez uma lasca de pão (de 150 gramas). Naquela ocasião presenciei, por exemplo, uma conversa em que o encarregado do barracão negociava um prendedor de gravata, de platina, encravado de brilhantes, com um prisioneiro daquele grupo de elite. O grosso desses objetos, entretanto, acabava sendo trocado por aguardente que desse para divertir-se uma noite. Só sei de uma coisa: esses prisioneiros de muitos anos precisavam de álcool. Quem vai censurar uma pessoa que se entorpece em semelhante situação interior e exterior? Para não falar dos prisioneiros postos a trabalhar nas câmaras de gás e no crematório, e que sabiam perfeitamente que, passando o seu turno, seriam substituídos por outro grupo, e que seguiriam eles mesmos um dia o caminho daquelas vítimas cujos carrascos eram forçados a ser agora. Esse grupo recebia álcool praticamente à vontade até do pessoal da SS.
A primeira seleção
Eu e praticamente todos os integrantes do nosso transporte estávamos, portanto, tomados por essa ilusão de indulto que acredita que tudo ainda pode sair bem. Pois ainda não tínhamos condições de entender a razão daquilo que ali se desenrolava; somente à noite é que iríamos entender. Mandaram-nos deixar toda a bagagem num vagão, desembarcar e formar uma fila de homens e outra de mulheres, para então desfilar perante um oficial superior da SS. Curiosamente, tive coragem de levar comigo minha sacola, escondida da melhor maneira possível debaixo da capa. Vejo, então, que a minha coluna se dirige, homem por homem, em direção ao oficial da SS. Fico calculando: se ele perceber o peso da sacola que me puxa para o lado haverá no mínimo uma bofetada que me fará voar na lama; isto eu já conhecia de outra ocasião. . . Mais por instinto, quanto mais me aproximo daquele homem, deixo meu corpo cada vez mais ereto, para que ele não perceba que estou carregando um peso. Ei-lo agora à minha frente: alto, esbelto, elegante, num uniforme perfeito e reluzente - uma pessoa bem trajada e cuidada, muito distante das nossas tristes figuras de rosto sonolento e aparência decaída. Ele se sente muito à vontade. Apóia o cotovelo direito na mão esquerda, e com a mão direita erguida executa um leve aceno com o indicador, ora para a direita, ora para a esquerda. Nenhum de nós tinha a menor idéia do significado sinistro daquele pequeno gesto com o dedo - ora para a esquerda, ora para a direita, com freqüência muito maior para a direita. Chega a minha vez. Alguém me sussurrou que para a direita (olhando da nossa direção) ia-se para o trabalho; para a esquerda, para um campo de doentes e incapacitados para o trabalho. Simplesmente deixo os fatos acontecerem. É a primeira vez que faço isso. Mas tomarei esta atitude muitas vezes de agora em diante. Minha sacola me puxa para a esquerda, mas me aprumo e fico ereto. O homem da SS me olha criticamente. Parece hesitar, põe as duas mãos nos meus ombros; faço um esforço para assumir uma postura do tipo militar. Fico firme e ereto: lentamente, ele faz girar os meus ombros - e lá me vou para a direita.
À noite ficamos sabendo o significado desse jogo com o dedo indicador: era a primeira seleção! A primeira decisão sobre ser ou não ser. Para a imensa maioria do nosso transporte, cerca de 90%, foi a sentença de morte. Ela foi levada a cabo em poucas horas. Quem era mandado para a esquerda marchava diretamente da rampa da estação para um dos prédios do crematório, onde - segundo me contaram pessoas que ali trabalhavam - havia letreiros em diversas línguas européias que caracterizavam o prédio como casa de banhos. Então todos os participantes do transporte mandados para a esquerda recebiam um pedaço de sabão marca "Rif". Sobre o que se desenrolava dali em diante posso calar-me, depois que relatos mais autênticos já o tornaram conhecido. Nós, a minoria do transporte, ficamos sabendo naquela mesma noite. Perguntei a companheiros que já estavam há mais tempo no campo de concentração onde poderia ter ido parar meu colega e amigo P. - "Ele foi mandado para o outro lado?" - "Sim", respondi. - "Então podes vê-lo ali", disseram. "Onde?" Uma mão aponta para uma chaminé distante algumas centenas de metros, da qual sobe assustadora e alta labareda pelo imenso e cinzento céu polonês, para se extinguir em tenebrosa nuvem de fumaça. "O que há ali?" - "Ali o teu amigo está voando para o céu", é a resposta grosseira. Continuo sem entender; mas logo começo a compreender, assim que me "iniciam" no assunto.
Tudo isto já contei por antecipação. Sob o ponto de vista psicológico, ainda tínhamos um caminho muito longo a percorrer, desde o alvorecer na estação até adormecermos pela primeira vez no campo de concentração. Nossa coluna foi obrigada correr desde a estação, escoltada por um pelotão da guarda SS com o fuzil engatilhado, passando pelos corredores de arame farpado carregado de alta tensão, até o banho de desinfecção - para nós, eleitos na primeira seleção, ao menos um banho real. Mais uma vez era alimentada a nossa ilusão de indulto: a SS até parecia muito afável! Mas logo percebemos que eram agradáveis conosco enquanto viam relógios em nossos pulsos, para, em tom muito cordial, nos persuadir a entregá-los, já que de qualquer forma teríamos que entregar tudo que ainda tínhamos conosco. Cada um de nós pensava consigo mesmo: perdido por perdido, se essa pessoa relativamente amigável receber o relógio em caráter particular - por que não? Quem sabe, um dia poderá prestar-me algum favor.
domingo, 28 de junho de 2009
TRIBUTO A MICHAEL JACKSON : PROVA DE QUE A ARTE TRANSCENDE....
REGINA BEZERRA CARVÃO
O ser humano está sempre a nos provar que a humanidade expressa em arte , transcende o físico, o mental, o psíquico.... vai muito alem do pessoal, liberta-nos de todo o tipo de prisão que possa nos ser imposta ....
É transpessoal !!!!
Prova disto ?
Assista o vídeo feito por 1500 presidiários das Filipinas em um Tributo a Michael Jackson(tiny.cc/mj957).
terça-feira, 23 de junho de 2009
TERAPIAS COMPLEMENTARES : MEDITAÇÃO E IMAGINAÇÃO ATIVA
REGINA BEZERRA CARVÃO
Proposições e Fundamentação Teórica
Proposta de estudo sobre a utilização da meditação e imaginação ativa como terapias complementares na recuperação e manutenção da saúde, através de análise a ser especificada na metodologia.
Estas práticas terapêuticas estão intimamente ligadas a Psicologia Transpessoal por fazerem parte da abordagem integrativa da Psicologia Transpessoal e por utilizarem-se de outros estados da consciência além da vigília .
Objetivos
OBJETIVO GERAL : Estabelecer o ponto de confluência entre meditação e visualização ativa e os tratamentos médicos convencionais, utilizando como centro emblemático deste estudo pesquisas legitimadas em publicações científicas que demonstrem a eficácia destas três terapias na manutenção e recuperação da saúde.
OBJETIVO ESPECÍFICO : Demonstrar que estas terapias são complementares e não alternativas aos processos terapêuticos da medicina convencional. Neste momento distinguir o alternativo do complementar e mostrar o resultado desta distinção.
Metodologia
Propõe-se um estudo descritivo de conceitos e significados : Meditação e Imaginação Ativa, no contexto da recuperação e manutenção da saúde.
Este estudo se utilizará de levantamento bibliográfico de pesquisas legitimadas por publicações científicas que abordem o tema e contemplará especialmente as similaridades, transposições, ligações, relações e complementaridades que apontem resultados satisfatórios na condução destas três práticas terapêuticas.
Meditação e Imaginação Ativa na Psicologia Transpessoal
Todos os recursos transpessoais aplicados à educação, à clínica, à instituição e a outros contextos que tenham por base os postulados teóricos da Psicologia transpessoal favorecem o equilíbrio de todos os níveis, os níveis comuns de pensar, agir e sentir, e os níveis superiores de pensar, agir e sentir que acontecem de forma elevada, superior, sábia, a nível do supraconsciente “sob a referência da psicologia transpessoal supraconsciente indica uma dimensão superior do inconsciente, com conteúdos positivos, construtivos”.....(Vera Saldanha p. 150)
A Abordagem Integrativa transpessoal trabalha a integração do ser utilizando-se da:
Intervenção Verbal – Este nível representa toda gama de verbalizações, as quais facilitam o estabelecimento de vínculos. Trata-se de uma forma na qual se propicia a presença do eixo experiencial, por meio da razão, emoção, sensação e intuição, e que irá facilitar a manifestação do eixo evolutivo, por intermédio da ordem mental superior, que representa simbolicamente, o aprendiz interno, o eu superior, o seu núcleo saudável e de equilíbrio.
Atua no nível intuitivo e nos níveis mental e emocional.
Imaginação Ativa – Trata-se de uma possibilidade do inconsciente de desenvolver imagens mentais, aparentemente aleatórias, mas que estão sendo criadas e contornadas pelas motivações mais profundas dos diferentes níveis do próprio indivíduo.
Nesta fase, potencializam-se aspectos da consciência de vigília,atualiza-se uma percepção mais ampla da realidade e estimula-se a presença da ordem mental superior.
Atua no nível intuitivo e nos níveis etérico e físico.
Reorganização Simbólica – Esta dinâmica facilita a organização de determinados conteúdos, numa sequência lógica e adequada, seja no aspecto psíquico, temporal ou espacial.
Envolve a imaginação, mas vai além, incluindo : clarificar e organizar metas; organizar os aspectos de direcionamento do psiquismo; favorecer o indivíduo na execução de metas, dando vida às imagens mentais, acionando a intuição e os processos psíquicos inconscientes, os quais transformam esses desejos em realidade, por meio das atitudes no cotidiano.
Atua nos níveis intuitivo e nos níveis mental e emocional.
Dinâmica Interativa – Aqui faz-se um trabalho profundo e significativo, realizado com os conteúdos psíquicos, por meio de sete etapas específicas, as quais são favorecidas na abordagem integrativa transpessoal. Estas etapas são denominadas :
Reconhecimento – um olhar ao redor... ( níveis etérico e físico )
Identificação–são as sensações físicas, sentimentos, pensamentos vivenciados pelo indivíduo a partir do olhar ao redor ( níveis mental e emocional )
Desidentificação – é o discernimento crítico, a análise, a reflexão...( níveis mental e emocional )
Transmutação – quando o conhecimento adquire significados pessoais ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Transformação – a experiência pessoal e a individualidade criadora somadas às vivências das etapas anteriores, transformam-se em um novo conhecimento ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Elaboração – Vem da própria transformação com os “insights” da nova aquisição, através do entendimento global do conhecimento, da situação e das possibilidades que promove o novo ( intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Integração – união do conhecimento na vida pessoal, profissional e cotidiana inserindo-se no TODO DO SER ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores ; níveis etérico e físico )
Recursos Auxiliares ou Adjuntos – Dentre estes recursos contemplamos a Oração e a Meditação porque revestem-se de uma importância cada vez maior, facilitam a atualização de níveis de expansão da consciência, especialmente do supraconsciente ( uma dimensão superior do inconsciente, com conteúdos positivos e construtivos); rebaixam o nível de tensão e a ansiedade; promovem uma clareza mental maior e receptividade ao novo, equilibram a produção de hormônios, harmonizam o metabolismo e aumentam as defesas imunológicas.
Atua nos níveis intuitivo,etérico e físico.
Distinção entre Terapia Alternativa e Terapia Complementar
De acordo com o NCCAM- National Center of Complementary and Alternative Medicine (2002), órgão participante do NIH- National Institutes of Health dos Estados Unidos, as terapias complementares e alternativas são um grupo de sistemas médicos e de cuidados à saúde, práticas e produtos que não são considerados parte da medicina convencional.
Há muitas evidências científicas sobre os efeitos das medicinas alternativas e complementares, mas ainda há questões chave a serem respondidas por estudos científicos bem delineados.
Ainda de acordo com o mesmo centro, o termo complementar, significa que a prática é utilizada com a medicina convencional. O termo alternativa significa que a prática é utilizada no lugar da medicina convencional. Portanto, há questões éticas bastante sérias a serem consideradas quando se fala em terapia alternativa, pois pressupõe-se que ela substitui a medicina convencional.
Já o termo complementar e/ou integrativa significa que a prática combina a terapia médica convencional com métodos complementares, para os quais há alguma evidência científica de alta qualidade quanto à segurança e efetividade.
Terapias Complementares no Brasil
Instituições brasileiras têm realizado pesquisas sobre os efeitos das terapias complementares como a meditação e a imaginação ativa.
A UNIFESP organizou em 2008 o l Simpósio Internacional de Medicinas Tradicionais e Práticas Contemplativas, um importante marco para a discussão sobre essas práticas entre profissionais e pesquisadores das áreas de saúde, qualidade de vida e bem-estar.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou uma inusitada fotografia do que até pouco tempo atrás seria quase improvável : uma foto de uma mulher em tratamento oncológico, em um importante hospital privado da cidade São Paulo recebendo instruções de meditação.
Portanto, não é mais possível ignorar ou simplesmente discordar da utilização de práticas das Terapias Complementares ou Integrativas. Há sim necessidade de divulgação de pesquisas dessas terapias para que se avalie sua eficácia, compreenda-se os mecanismos de ação de seus tratamentos, uma vez que a população tem se utilizado das mesmas há muito tempo.
O fato é que muitas pessoas buscam novas possibilidades de tratamento, pelas dificuldades de conseguir um atendimento pela medicina convencional, ou por estar insatisfeito pela maneira como caminham os cuidados com sua saúde, ou simplesmente por acreditar que as práticas complementares podem trazer melhor qualidade de vida para o que já recebem dentro do tratamento convencional.
A resposta a este crescente interesse talvez esteja na própria Organização Mundial da Saúde (OMS) que vem estimulando o uso da Medicina Tradicional e das Terapias Complementares nos Sistemas de Saúde de forma integrada às técnicas da medicina convencional em seu documento “Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002-2005” que preconiza o desenvolvimento de políticas observando os requisitos de segurança, eficácia, qualidade, uso racional e acesso.
No Brasil, em 2006, o SUS através da portaria SAS 853 criou o atendimento de práticas integrativas e complementares e neste mesmo ano o Ministro da Saúde publicou uma portaria que institui a PNPIC (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares), ou seja, a política pública oficial do Governo Federal para instalar atendimento em terapias complementares em todas as unidades de saúde no Brasil.
O governo espera ter atendimentos complementares em mais de 80% das unidades do SUS por volta de 2012. Ao mesmo tempo o Ministério da Saúde recomenda que essas terapias complementares sejam incluídas nos currículos universitários das áreas da saúde e que se façam concursos públicos para contratação de profissionais capacitados nessas áreas que possam prestar os serviços desejados.
O Número de municípios que já oferece atendimento em terapias complementares no Brasil é muito pequeno (cerca de 5% do total). Alguns pontos ainda não estão completamente esclarecidos, como por exemplo, qual deve ser a formação básica de cada um desses profissionais e qual deve ser o currículo e a carga horária para ser um especialista. Há ainda um conflito corporativo entre os conselhos de várias profissões da saúde para determinar quais profissionais estão autorizados a praticá-las.
Enquanto isso não fica esclarecido, cada prefeitura usa um critério próprio para escolher seus profissionais, não é a situação ideal, mas sem dúvida significou um grande passo para as terapias complementares e sua maior popularização no país.
A Secretaria Municipal de Saúde de Saúde de Campinas / SP foi uma das pioneiras ao disponibilizar, na sua rede de Centros de Saúde, por meio da Área de Saúde Integrativa, atendimentos de diversas terapias complementares incluindo a meditação .
Meditação e Imaginação Ativa
A meditação e a Imaginação Ativa não pertencem a nenhum caminho, nem religião, fazem parte de nossa natureza humana, são espontâneas e fáceis e são um estado natural como dormir.
Geralmente, em nossas atividades diárias quando temos algum tipo de concentração, é como se meditássemos no que estamos fazendo. A diferença de meditar de olhos fechados é focar a atenção no interior em vez de se focar na ação e de acordo com o Professor Paulo de Tarso Lima “ ao focarmos nossa atenção no momento presente, não há riscos porque não há futuro.”
Não importa o tipo da meditação, seja de que orientação for , independente de origem e religião, os resultados de práticas meditativas legitimados pela pesquisa científica têm-se apresentado sempre benéfico a seus praticantes.
A meditação e a Imaginação Ativa nos conduzem a um estado parecido com o estado do sono, ficamos conscientes, despertos, com a mente alerta, mas em estado de repouso. Com a prática da Meditação e da Imaginação Ativa, deslizamos para um espaço interior tranqüilo, onde relaxamos e entramos em contato com a fonte interior, o Ser interior,
A Meditação e a Imaginação Ativa são pacificadoras porque sua prática regular apaga as tensões e nos dá mais habilidade para enfrentar os desafios, a prevenir doenças, eliminar insônia e a inquietude da mente.
A prática da Meditação e a prática da Imaginação Ativa reduzem o metabolismo – os batimentos cardíacos e a respiração ficam mais lentos e diminui o consumo de oxigênio pelas células alcançando uma sensação de relaxamento e tranquilidade .
O termo “meditação” abrange numerosas tradições culturais e vários métodos de concentração mental, através do controle da respiração, visualizações, imaginação ativa, ou pelo contrário, a não focalização da mente em objetos ou idéias.
Meditação:
Muitas pessoas fazem algumas tentativas para meditar e acham difícil, porque pensam que precisam parar a mente ou porque pensam que logo vão mergulhar em estados de paz celestial e vazio da mente.
A escritura indiana Bhagavad Gita, diz que “ a mente é mais forte do que um vento e como ninguém pode parar o vento, apenas observá-lo, senti-lo e deixá-lo fluir, assim também devemos proceder com a nossa mente durante a meditação.”
A chave da meditação é observar a mente, observar os pensamentos, sem se preocupar com eles, sem lutar contra eles. O primeiro passo para a meditação é parar o corpo, silenciar a atividade física, aquietar a mente, ou pelo menos reduzir seus ruídos interiores.
Ao longo da história, a pratica da meditação tem objetivado a redução das tensões negativas nos planos conscientes e subconscientes, assim como facilitar a integração do indivíduo em seu ambiente físico, social e psicológico.
Imaginação Ativa
A imaginação ativa é a capacidade de “ver” na sua tela mental uma cena, ou de elaborar um cenário a partir dos sentidos internos. Como os sentidos geralmente estão mais focados no mundo externo, para focá-los internamente muitos precisam de uma ajuda externa, ou seja, uma pessoa ou um roteiro que conduza esta prática .
Durante a Imaginação Ativa quanto mais específico e mais detalhado for a descrição do cenário, movimentos, cores, formas, aromas, gostos, texturas, ruídos, pessoas, maior será a capacidade de alcançar o objetivo de ativar os sentidos internos .
Na Imaginação Ativa é o nível de detalhes que vai fazer com que o indivíduo domine seus movimentos e encontre mais facilidade em construir e visualizar todas as imagens sugeridas e solicitadas pelo condutor da prática .
Como resultado desta prática alcançamos o relaxamento, que tem a função de proporcionar a sensação de bem estar ao indivíduo, além de possibilitar a obtenção, mesmo que só através de imagens, daquilo que ele deseja e/ou precisa naquele momento.
Ao colocarmos nossa atenção no mundo interno, seja pelo método da Meditação como pelo método da Imaginação Ativa estamos nos programando para as modificações que vão nos aproximar de nossos objetivos, a curto prazo ou a longo prazo, porque hoje sabemos que o cérebro usa sempre o mesmo “caminho neuronal” que entra nos hábitos de raciocínio e comportamento.
Proposições e Fundamentação Teórica
Proposta de estudo sobre a utilização da meditação e imaginação ativa como terapias complementares na recuperação e manutenção da saúde, através de análise a ser especificada na metodologia.
Estas práticas terapêuticas estão intimamente ligadas a Psicologia Transpessoal por fazerem parte da abordagem integrativa da Psicologia Transpessoal e por utilizarem-se de outros estados da consciência além da vigília .
Objetivos
OBJETIVO GERAL : Estabelecer o ponto de confluência entre meditação e visualização ativa e os tratamentos médicos convencionais, utilizando como centro emblemático deste estudo pesquisas legitimadas em publicações científicas que demonstrem a eficácia destas três terapias na manutenção e recuperação da saúde.
OBJETIVO ESPECÍFICO : Demonstrar que estas terapias são complementares e não alternativas aos processos terapêuticos da medicina convencional. Neste momento distinguir o alternativo do complementar e mostrar o resultado desta distinção.
Metodologia
Propõe-se um estudo descritivo de conceitos e significados : Meditação e Imaginação Ativa, no contexto da recuperação e manutenção da saúde.
Este estudo se utilizará de levantamento bibliográfico de pesquisas legitimadas por publicações científicas que abordem o tema e contemplará especialmente as similaridades, transposições, ligações, relações e complementaridades que apontem resultados satisfatórios na condução destas três práticas terapêuticas.
Meditação e Imaginação Ativa na Psicologia Transpessoal
Todos os recursos transpessoais aplicados à educação, à clínica, à instituição e a outros contextos que tenham por base os postulados teóricos da Psicologia transpessoal favorecem o equilíbrio de todos os níveis, os níveis comuns de pensar, agir e sentir, e os níveis superiores de pensar, agir e sentir que acontecem de forma elevada, superior, sábia, a nível do supraconsciente “sob a referência da psicologia transpessoal supraconsciente indica uma dimensão superior do inconsciente, com conteúdos positivos, construtivos”.....(Vera Saldanha p. 150)
A Abordagem Integrativa transpessoal trabalha a integração do ser utilizando-se da:
Intervenção Verbal – Este nível representa toda gama de verbalizações, as quais facilitam o estabelecimento de vínculos. Trata-se de uma forma na qual se propicia a presença do eixo experiencial, por meio da razão, emoção, sensação e intuição, e que irá facilitar a manifestação do eixo evolutivo, por intermédio da ordem mental superior, que representa simbolicamente, o aprendiz interno, o eu superior, o seu núcleo saudável e de equilíbrio.
Atua no nível intuitivo e nos níveis mental e emocional.
Imaginação Ativa – Trata-se de uma possibilidade do inconsciente de desenvolver imagens mentais, aparentemente aleatórias, mas que estão sendo criadas e contornadas pelas motivações mais profundas dos diferentes níveis do próprio indivíduo.
Nesta fase, potencializam-se aspectos da consciência de vigília,atualiza-se uma percepção mais ampla da realidade e estimula-se a presença da ordem mental superior.
Atua no nível intuitivo e nos níveis etérico e físico.
Reorganização Simbólica – Esta dinâmica facilita a organização de determinados conteúdos, numa sequência lógica e adequada, seja no aspecto psíquico, temporal ou espacial.
Envolve a imaginação, mas vai além, incluindo : clarificar e organizar metas; organizar os aspectos de direcionamento do psiquismo; favorecer o indivíduo na execução de metas, dando vida às imagens mentais, acionando a intuição e os processos psíquicos inconscientes, os quais transformam esses desejos em realidade, por meio das atitudes no cotidiano.
Atua nos níveis intuitivo e nos níveis mental e emocional.
Dinâmica Interativa – Aqui faz-se um trabalho profundo e significativo, realizado com os conteúdos psíquicos, por meio de sete etapas específicas, as quais são favorecidas na abordagem integrativa transpessoal. Estas etapas são denominadas :
Reconhecimento – um olhar ao redor... ( níveis etérico e físico )
Identificação–são as sensações físicas, sentimentos, pensamentos vivenciados pelo indivíduo a partir do olhar ao redor ( níveis mental e emocional )
Desidentificação – é o discernimento crítico, a análise, a reflexão...( níveis mental e emocional )
Transmutação – quando o conhecimento adquire significados pessoais ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Transformação – a experiência pessoal e a individualidade criadora somadas às vivências das etapas anteriores, transformam-se em um novo conhecimento ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Elaboração – Vem da própria transformação com os “insights” da nova aquisição, através do entendimento global do conhecimento, da situação e das possibilidades que promove o novo ( intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores )
Integração – união do conhecimento na vida pessoal, profissional e cotidiana inserindo-se no TODO DO SER ( nível intuitivo – ações superiores, sentimentos superiores, pensamentos superiores ; níveis etérico e físico )
Recursos Auxiliares ou Adjuntos – Dentre estes recursos contemplamos a Oração e a Meditação porque revestem-se de uma importância cada vez maior, facilitam a atualização de níveis de expansão da consciência, especialmente do supraconsciente ( uma dimensão superior do inconsciente, com conteúdos positivos e construtivos); rebaixam o nível de tensão e a ansiedade; promovem uma clareza mental maior e receptividade ao novo, equilibram a produção de hormônios, harmonizam o metabolismo e aumentam as defesas imunológicas.
Atua nos níveis intuitivo,etérico e físico.
Distinção entre Terapia Alternativa e Terapia Complementar
De acordo com o NCCAM- National Center of Complementary and Alternative Medicine (2002), órgão participante do NIH- National Institutes of Health dos Estados Unidos, as terapias complementares e alternativas são um grupo de sistemas médicos e de cuidados à saúde, práticas e produtos que não são considerados parte da medicina convencional.
Há muitas evidências científicas sobre os efeitos das medicinas alternativas e complementares, mas ainda há questões chave a serem respondidas por estudos científicos bem delineados.
Ainda de acordo com o mesmo centro, o termo complementar, significa que a prática é utilizada com a medicina convencional. O termo alternativa significa que a prática é utilizada no lugar da medicina convencional. Portanto, há questões éticas bastante sérias a serem consideradas quando se fala em terapia alternativa, pois pressupõe-se que ela substitui a medicina convencional.
Já o termo complementar e/ou integrativa significa que a prática combina a terapia médica convencional com métodos complementares, para os quais há alguma evidência científica de alta qualidade quanto à segurança e efetividade.
Terapias Complementares no Brasil
Instituições brasileiras têm realizado pesquisas sobre os efeitos das terapias complementares como a meditação e a imaginação ativa.
A UNIFESP organizou em 2008 o l Simpósio Internacional de Medicinas Tradicionais e Práticas Contemplativas, um importante marco para a discussão sobre essas práticas entre profissionais e pesquisadores das áreas de saúde, qualidade de vida e bem-estar.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou uma inusitada fotografia do que até pouco tempo atrás seria quase improvável : uma foto de uma mulher em tratamento oncológico, em um importante hospital privado da cidade São Paulo recebendo instruções de meditação.
Portanto, não é mais possível ignorar ou simplesmente discordar da utilização de práticas das Terapias Complementares ou Integrativas. Há sim necessidade de divulgação de pesquisas dessas terapias para que se avalie sua eficácia, compreenda-se os mecanismos de ação de seus tratamentos, uma vez que a população tem se utilizado das mesmas há muito tempo.
O fato é que muitas pessoas buscam novas possibilidades de tratamento, pelas dificuldades de conseguir um atendimento pela medicina convencional, ou por estar insatisfeito pela maneira como caminham os cuidados com sua saúde, ou simplesmente por acreditar que as práticas complementares podem trazer melhor qualidade de vida para o que já recebem dentro do tratamento convencional.
A resposta a este crescente interesse talvez esteja na própria Organização Mundial da Saúde (OMS) que vem estimulando o uso da Medicina Tradicional e das Terapias Complementares nos Sistemas de Saúde de forma integrada às técnicas da medicina convencional em seu documento “Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002-2005” que preconiza o desenvolvimento de políticas observando os requisitos de segurança, eficácia, qualidade, uso racional e acesso.
No Brasil, em 2006, o SUS através da portaria SAS 853 criou o atendimento de práticas integrativas e complementares e neste mesmo ano o Ministro da Saúde publicou uma portaria que institui a PNPIC (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares), ou seja, a política pública oficial do Governo Federal para instalar atendimento em terapias complementares em todas as unidades de saúde no Brasil.
O governo espera ter atendimentos complementares em mais de 80% das unidades do SUS por volta de 2012. Ao mesmo tempo o Ministério da Saúde recomenda que essas terapias complementares sejam incluídas nos currículos universitários das áreas da saúde e que se façam concursos públicos para contratação de profissionais capacitados nessas áreas que possam prestar os serviços desejados.
O Número de municípios que já oferece atendimento em terapias complementares no Brasil é muito pequeno (cerca de 5% do total). Alguns pontos ainda não estão completamente esclarecidos, como por exemplo, qual deve ser a formação básica de cada um desses profissionais e qual deve ser o currículo e a carga horária para ser um especialista. Há ainda um conflito corporativo entre os conselhos de várias profissões da saúde para determinar quais profissionais estão autorizados a praticá-las.
Enquanto isso não fica esclarecido, cada prefeitura usa um critério próprio para escolher seus profissionais, não é a situação ideal, mas sem dúvida significou um grande passo para as terapias complementares e sua maior popularização no país.
A Secretaria Municipal de Saúde de Saúde de Campinas / SP foi uma das pioneiras ao disponibilizar, na sua rede de Centros de Saúde, por meio da Área de Saúde Integrativa, atendimentos de diversas terapias complementares incluindo a meditação .
Meditação e Imaginação Ativa
A meditação e a Imaginação Ativa não pertencem a nenhum caminho, nem religião, fazem parte de nossa natureza humana, são espontâneas e fáceis e são um estado natural como dormir.
Geralmente, em nossas atividades diárias quando temos algum tipo de concentração, é como se meditássemos no que estamos fazendo. A diferença de meditar de olhos fechados é focar a atenção no interior em vez de se focar na ação e de acordo com o Professor Paulo de Tarso Lima “ ao focarmos nossa atenção no momento presente, não há riscos porque não há futuro.”
Não importa o tipo da meditação, seja de que orientação for , independente de origem e religião, os resultados de práticas meditativas legitimados pela pesquisa científica têm-se apresentado sempre benéfico a seus praticantes.
A meditação e a Imaginação Ativa nos conduzem a um estado parecido com o estado do sono, ficamos conscientes, despertos, com a mente alerta, mas em estado de repouso. Com a prática da Meditação e da Imaginação Ativa, deslizamos para um espaço interior tranqüilo, onde relaxamos e entramos em contato com a fonte interior, o Ser interior,
A Meditação e a Imaginação Ativa são pacificadoras porque sua prática regular apaga as tensões e nos dá mais habilidade para enfrentar os desafios, a prevenir doenças, eliminar insônia e a inquietude da mente.
A prática da Meditação e a prática da Imaginação Ativa reduzem o metabolismo – os batimentos cardíacos e a respiração ficam mais lentos e diminui o consumo de oxigênio pelas células alcançando uma sensação de relaxamento e tranquilidade .
O termo “meditação” abrange numerosas tradições culturais e vários métodos de concentração mental, através do controle da respiração, visualizações, imaginação ativa, ou pelo contrário, a não focalização da mente em objetos ou idéias.
Meditação:
Muitas pessoas fazem algumas tentativas para meditar e acham difícil, porque pensam que precisam parar a mente ou porque pensam que logo vão mergulhar em estados de paz celestial e vazio da mente.
A escritura indiana Bhagavad Gita, diz que “ a mente é mais forte do que um vento e como ninguém pode parar o vento, apenas observá-lo, senti-lo e deixá-lo fluir, assim também devemos proceder com a nossa mente durante a meditação.”
A chave da meditação é observar a mente, observar os pensamentos, sem se preocupar com eles, sem lutar contra eles. O primeiro passo para a meditação é parar o corpo, silenciar a atividade física, aquietar a mente, ou pelo menos reduzir seus ruídos interiores.
Ao longo da história, a pratica da meditação tem objetivado a redução das tensões negativas nos planos conscientes e subconscientes, assim como facilitar a integração do indivíduo em seu ambiente físico, social e psicológico.
Imaginação Ativa
A imaginação ativa é a capacidade de “ver” na sua tela mental uma cena, ou de elaborar um cenário a partir dos sentidos internos. Como os sentidos geralmente estão mais focados no mundo externo, para focá-los internamente muitos precisam de uma ajuda externa, ou seja, uma pessoa ou um roteiro que conduza esta prática .
Durante a Imaginação Ativa quanto mais específico e mais detalhado for a descrição do cenário, movimentos, cores, formas, aromas, gostos, texturas, ruídos, pessoas, maior será a capacidade de alcançar o objetivo de ativar os sentidos internos .
Na Imaginação Ativa é o nível de detalhes que vai fazer com que o indivíduo domine seus movimentos e encontre mais facilidade em construir e visualizar todas as imagens sugeridas e solicitadas pelo condutor da prática .
Como resultado desta prática alcançamos o relaxamento, que tem a função de proporcionar a sensação de bem estar ao indivíduo, além de possibilitar a obtenção, mesmo que só através de imagens, daquilo que ele deseja e/ou precisa naquele momento.
Ao colocarmos nossa atenção no mundo interno, seja pelo método da Meditação como pelo método da Imaginação Ativa estamos nos programando para as modificações que vão nos aproximar de nossos objetivos, a curto prazo ou a longo prazo, porque hoje sabemos que o cérebro usa sempre o mesmo “caminho neuronal” que entra nos hábitos de raciocínio e comportamento.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O QUE É TRANSPESSOAL ?
VERA SALDANHA
DOUTORA EM PSICOLOGIA TRANSPESSOAL - UNICAMP - CAMPINAS - SÃO PAULO - BRASIL
PRESIDENTE DA ALUBRAT - ASSOCIAÇÃO LUSO BRASILEIRA DE TRANSPESSOAL
Transpessoal caracteriza-se por ser uma experiência que segundo Walsh e Vaughan, pode definir-se como “aquela e em que o senso de identidade ou do eu ultrapassa (trans + passar = ir além) o individual e o pessoal a fim de abarcar aspectos da humanidade, da vida, da psique e do cosmo” (Walsh; Vaughan, 1997, p. 17).
A Psicologia Transpessoal pode ser entendida como estudos e práticas psicológicas destas experiências na saúde, educação, organizações, instituições, incluído não só sua natureza, variedades, causas e efeitos, seu desenvolvimento, bem como a sua manifestação na filosofia, arte, cultura, educação, religiões.
Em relação às disciplinas, por exemplo, a Psiquiatria Transpessoal concentra-se no estudo das experiências e fenômenos Transpessoais, enfocando, particularmente, seus aspectos clínicos e biomédicos. Na Antropologia Transpessoal refere-se ao estudo transcultural da experiência de ir além do eu pessoal e da relação entre a consciência e a cultura, enquanto que a Sociologia Transpessoal estuda as dimensões e expressões sociais desses fenômenos e a Ecologia Transpessoal aborda as repercussões e aplicações ecológicas dos mesmos.
É importante observar, todavia, que essas definições não determinam e não excluem o pessoal, também não invalidam, enquadram-no dentro de um contexto mais amplo, o qual reconhece a importância de ambas as experiências pessoais e transpessoais; também não prendem as disciplinas transpessoais a nenhuma filosofia, religião ou visão específica do mundo nem restringem a pesquisa a um determinado método (WALSH; VAUGHAN, 1997, p. 17).
O termo “Transpessoal” foi referendado, pela primeira vez na área da Psicologia, por Carl Gustav Jung, utilizando as palavras überpersönlich, em 1917, que significam suprapessoa e suprapessoal, respectivamente.
Uma definição dada por Pierre Weil é a de Psicologia Transpessoal como:
Um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência que lida mais especificamente com a “Experiência Cósmica” ou estados ditos “Superiores” ou “Ampliados” da consciência. Estes estados de consciência consistem na entrada numa dimensão fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma realidade que se aproxima muito dos conceitos de física moderna (WEIL, 1999, p. 9).
Assim definimos a Psicologia Transpessoal como o estudo, pesquisa e aplicação dos diferentes estados de consciência em direção a Unidade do Ser. Sua área de atuação dá-se em todos os campos do conhecimento que tem como base a Psicologia (SALDANHA, 2008).
Observamos atualmente uma necessidade crescente de um enfoque psicológico que contemple a dimensão espiritual, ética e valores construtivos, positivos. A própria inserção na Psiquiatria da Categoria de “Problemas Religiosos e Espirituais” como pertinentes as necessidades psíquicas, faz com que a Psicologia Transpessoal torne-se cada vez mais necessária como um embasamento teórico, que nos proporciona recursos e cuidados para lidar com suavidade e profundidade em uma dimensão psico-espiritual do individuo. Mas isto não acontece somente no espaço clinico, também nas organizações, berço onde Maslow evidenciou as metanecessidades do Ser humano, além da auto-realização, estima, amor e segurança.
Nesta caminhada de autoconhecimento, a importância do contato com uma dimensão superior da psique, nossa dimensão saudável, é naturalmente ética.
Além disso, também na educação a abrangência da Didática Transpessoal (SALDANHA, 2008) nos permite um manancial de instrumentos na prática pedagógica, uma compreensão da relação educador-educando, bem como um entendimento maior da metacognição, motivação e aprendizagem.
Assim sem dúvida alguma a abordagem Transpessoal revela um olhar contemporâneo necessário à nossa Psicologia no momento atual.
A Alubrat surge no Brasil, trazendo a primeira pós-graduação lato-sensu em Psicologia Transpessoal e também como uma das instituições pioneiras no âmbito internacional com caráter mais cunhado pela pesquisa e embasamento teórico-prático das vivencias Transpessoais.
Seu nascedouro ocorreu justamente nos cursos de Psicologia Transpessoal. Veio com a missão de propagar no âmbito acadêmico essa vertente, legitimando a espiritualidade como aspecto inerente a natureza biológica do ser, algo desejável, curativo, saudável, e que pode nos adoecer quando ignorado ou reprimido. Isto pode ocorrer, não só no plano pessoal, como também no social e cultural.
Um axioma fundamental na abordagem de orientação Transpessoal é a espiritualidade no Ser humano.
Outros aspectos que se destacam neste enfoque é uma ampliação da cartografia da consciência incluindo experiências antes do nascimento, após a morte física, e de uma dimensão superior da consciência.
A Psicologia Transpessoal evidencia o trabalho por meio dos diferentes estados de consciência, a imortalidade da consciência, e o conceito de unidade como a grande Tônica Transpessoal.
Todo e qualquer legitimo trabalho Transpessoal, necessariamente percorre estes aspectos em sua suas vivências.Neste sentindo podemos dizer que há uma perspectiva comum que as unificam.Entretanto ocorrem distintas leituras metodológicas, e especialmente no Brasil, podemos citar a Alubrat com a Abordagem Integrativa Transpessoal, (Vera Saldanha); o trabalho de Jean-Yves Leloup, fundado na Meditação do Coração e na Tradição Hesicaste; o Cosmodrama de Pierre Weil tendo como fonte o Psicodrama; o trabalho de Leo Matos baseado na Psicologia Tibetana; a Dinâmica Energético do Psiquismo de Theda Basso e de Aidda Pustilnik que tem como fonte a Barbara Ann Brennan; o trabalho de Gislane D’Assumpção em Tanatologia a Respiração Holotrópica com base em Stanislav Grof. Outros trabalhos também são desenvolvidos, alguns mais ligados à filosofia espírita, outros ao enfoque de Roberto Assagioli ou de Ken Wilber; enfim, hoje temos muitos grupos que embora diversificados em sua metodologia tem uma vertente comum: o despertar da Consciência.
Penso que um grande Congresso Brasileiro que reunisse estes distintos grupos seria uma imensa contribuição para o movimento Transpessoal, o qual consolidaria a sua unidade na diversidade.
Fica a sugestão!
Referências:
SALDANHA, Vera. Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa Um Conhecimento Emergente em Psicologia da Consciência. Ijuí: Unijui, 2008.
WALSH, Roger; VAUGHAN, Frances. Além do Ego: Dimensões Transpessoais em Psicologia. São Paulo: Cultrix, 1997.
WEIL, Pierre. Lágrimas de Compaixão: e a Revolução Silenciosa Continua. São Paulo: Pensamento, 1999.
Vera Peceguini Saldanha
*Psicóloga;
*Presidente da Associação Luso Brasileira de Transpessoal (ALUBRAT) como sede no Brasil e Portugal;
*Doutora em Psicologia Transpessoal (FE Unicamp);
*Autora do livro: Psicologia Transpessoal: Um Conhecimento Emergente de Consciência, Ed. Unijui;
*Autora do livro: A Psicoterapia Transpessoal, Ed. Rosa dos Tempos – 2ª edição;
*Ministra cursos e conferências na área de Psicologia Transpessoal em diversos estados do Brasil e exterior desde 1985.
DOUTORA EM PSICOLOGIA TRANSPESSOAL - UNICAMP - CAMPINAS - SÃO PAULO - BRASIL
PRESIDENTE DA ALUBRAT - ASSOCIAÇÃO LUSO BRASILEIRA DE TRANSPESSOAL
Transpessoal caracteriza-se por ser uma experiência que segundo Walsh e Vaughan, pode definir-se como “aquela e em que o senso de identidade ou do eu ultrapassa (trans + passar = ir além) o individual e o pessoal a fim de abarcar aspectos da humanidade, da vida, da psique e do cosmo” (Walsh; Vaughan, 1997, p. 17).
A Psicologia Transpessoal pode ser entendida como estudos e práticas psicológicas destas experiências na saúde, educação, organizações, instituições, incluído não só sua natureza, variedades, causas e efeitos, seu desenvolvimento, bem como a sua manifestação na filosofia, arte, cultura, educação, religiões.
Em relação às disciplinas, por exemplo, a Psiquiatria Transpessoal concentra-se no estudo das experiências e fenômenos Transpessoais, enfocando, particularmente, seus aspectos clínicos e biomédicos. Na Antropologia Transpessoal refere-se ao estudo transcultural da experiência de ir além do eu pessoal e da relação entre a consciência e a cultura, enquanto que a Sociologia Transpessoal estuda as dimensões e expressões sociais desses fenômenos e a Ecologia Transpessoal aborda as repercussões e aplicações ecológicas dos mesmos.
É importante observar, todavia, que essas definições não determinam e não excluem o pessoal, também não invalidam, enquadram-no dentro de um contexto mais amplo, o qual reconhece a importância de ambas as experiências pessoais e transpessoais; também não prendem as disciplinas transpessoais a nenhuma filosofia, religião ou visão específica do mundo nem restringem a pesquisa a um determinado método (WALSH; VAUGHAN, 1997, p. 17).
O termo “Transpessoal” foi referendado, pela primeira vez na área da Psicologia, por Carl Gustav Jung, utilizando as palavras überpersönlich, em 1917, que significam suprapessoa e suprapessoal, respectivamente.
Uma definição dada por Pierre Weil é a de Psicologia Transpessoal como:
Um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência que lida mais especificamente com a “Experiência Cósmica” ou estados ditos “Superiores” ou “Ampliados” da consciência. Estes estados de consciência consistem na entrada numa dimensão fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma realidade que se aproxima muito dos conceitos de física moderna (WEIL, 1999, p. 9).
Assim definimos a Psicologia Transpessoal como o estudo, pesquisa e aplicação dos diferentes estados de consciência em direção a Unidade do Ser. Sua área de atuação dá-se em todos os campos do conhecimento que tem como base a Psicologia (SALDANHA, 2008).
Observamos atualmente uma necessidade crescente de um enfoque psicológico que contemple a dimensão espiritual, ética e valores construtivos, positivos. A própria inserção na Psiquiatria da Categoria de “Problemas Religiosos e Espirituais” como pertinentes as necessidades psíquicas, faz com que a Psicologia Transpessoal torne-se cada vez mais necessária como um embasamento teórico, que nos proporciona recursos e cuidados para lidar com suavidade e profundidade em uma dimensão psico-espiritual do individuo. Mas isto não acontece somente no espaço clinico, também nas organizações, berço onde Maslow evidenciou as metanecessidades do Ser humano, além da auto-realização, estima, amor e segurança.
Nesta caminhada de autoconhecimento, a importância do contato com uma dimensão superior da psique, nossa dimensão saudável, é naturalmente ética.
Além disso, também na educação a abrangência da Didática Transpessoal (SALDANHA, 2008) nos permite um manancial de instrumentos na prática pedagógica, uma compreensão da relação educador-educando, bem como um entendimento maior da metacognição, motivação e aprendizagem.
Assim sem dúvida alguma a abordagem Transpessoal revela um olhar contemporâneo necessário à nossa Psicologia no momento atual.
A Alubrat surge no Brasil, trazendo a primeira pós-graduação lato-sensu em Psicologia Transpessoal e também como uma das instituições pioneiras no âmbito internacional com caráter mais cunhado pela pesquisa e embasamento teórico-prático das vivencias Transpessoais.
Seu nascedouro ocorreu justamente nos cursos de Psicologia Transpessoal. Veio com a missão de propagar no âmbito acadêmico essa vertente, legitimando a espiritualidade como aspecto inerente a natureza biológica do ser, algo desejável, curativo, saudável, e que pode nos adoecer quando ignorado ou reprimido. Isto pode ocorrer, não só no plano pessoal, como também no social e cultural.
Um axioma fundamental na abordagem de orientação Transpessoal é a espiritualidade no Ser humano.
Outros aspectos que se destacam neste enfoque é uma ampliação da cartografia da consciência incluindo experiências antes do nascimento, após a morte física, e de uma dimensão superior da consciência.
A Psicologia Transpessoal evidencia o trabalho por meio dos diferentes estados de consciência, a imortalidade da consciência, e o conceito de unidade como a grande Tônica Transpessoal.
Todo e qualquer legitimo trabalho Transpessoal, necessariamente percorre estes aspectos em sua suas vivências.Neste sentindo podemos dizer que há uma perspectiva comum que as unificam.Entretanto ocorrem distintas leituras metodológicas, e especialmente no Brasil, podemos citar a Alubrat com a Abordagem Integrativa Transpessoal, (Vera Saldanha); o trabalho de Jean-Yves Leloup, fundado na Meditação do Coração e na Tradição Hesicaste; o Cosmodrama de Pierre Weil tendo como fonte o Psicodrama; o trabalho de Leo Matos baseado na Psicologia Tibetana; a Dinâmica Energético do Psiquismo de Theda Basso e de Aidda Pustilnik que tem como fonte a Barbara Ann Brennan; o trabalho de Gislane D’Assumpção em Tanatologia a Respiração Holotrópica com base em Stanislav Grof. Outros trabalhos também são desenvolvidos, alguns mais ligados à filosofia espírita, outros ao enfoque de Roberto Assagioli ou de Ken Wilber; enfim, hoje temos muitos grupos que embora diversificados em sua metodologia tem uma vertente comum: o despertar da Consciência.
Penso que um grande Congresso Brasileiro que reunisse estes distintos grupos seria uma imensa contribuição para o movimento Transpessoal, o qual consolidaria a sua unidade na diversidade.
Fica a sugestão!
Referências:
SALDANHA, Vera. Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa Um Conhecimento Emergente em Psicologia da Consciência. Ijuí: Unijui, 2008.
WALSH, Roger; VAUGHAN, Frances. Além do Ego: Dimensões Transpessoais em Psicologia. São Paulo: Cultrix, 1997.
WEIL, Pierre. Lágrimas de Compaixão: e a Revolução Silenciosa Continua. São Paulo: Pensamento, 1999.
Vera Peceguini Saldanha
*Psicóloga;
*Presidente da Associação Luso Brasileira de Transpessoal (ALUBRAT) como sede no Brasil e Portugal;
*Doutora em Psicologia Transpessoal (FE Unicamp);
*Autora do livro: Psicologia Transpessoal: Um Conhecimento Emergente de Consciência, Ed. Unijui;
*Autora do livro: A Psicoterapia Transpessoal, Ed. Rosa dos Tempos – 2ª edição;
*Ministra cursos e conferências na área de Psicologia Transpessoal em diversos estados do Brasil e exterior desde 1985.
domingo, 7 de junho de 2009
TRADUZIR -SE
FERREIRA GULLAR
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
sábado, 6 de junho de 2009
ENEAGRAMA
REGINA BEZERRA CARVÃO
Meu tipo no Eneagrama e a relação com o momento atual.
O tipo 7 do Eneagrama é o que melhor me representa no momento, sua descrição ajuda-me a uma melhor análise e entendimento pessoal.
Ao aplicar o questionário a minha pontuação oscilou de 3 a 14 pontos distribuindo-se da seguinte forma :
Tipo Eneagrama === Pontuação obtida
1================= 7
2================= 9
3================= 6
4================= 4
5================= 3
6================= 6
7=================14
8================= 7
9================= 4
Conhecendo o tipo 7 identifiquei em mim, em primeiro lugar o medo de perder a liberdade e em segundo lugar a procura incessante pelo prazer representado pela novidade.
Nos momentos de dificuldades e sofrimentos o que mais se mostra em mim é o medo da profundidade porque promove o enfrentamento com a dor, em decorrência segue-se um sentimento de ansiedade e uma fuga para o mundo exterior.
Este medo da profundidade pode ser melhor compreendido ao analisar meus tipos vizinhos - ou eneatipos em movimento - ou alas.
Os meus são os tipos 6 e 8. Nos subtipos de autoconservação encontro o 6 em mim quando sou acometida por sentimentos de profunda desconfiança e o 8 quando me toma conta o sentimento perfeccionista que pensa que tudo tem que funcionar perfeitamente.
Quanto aos tipos vizinhos que relativizam minha dor trazendo-me conforto, encontro no tipo 6 calma, serenidade e confiança e no tipo 8 maior sociabilidade, ternura e proteção.
No momento identifico uma maior aproximação dos tipos que relativizam minha dor porque sinto uma maior capacidade de confiar, observo-me mais contida, recolhida e sentindo que minha contribuição, mesmo que pequena, é importante para o todo. Procuro estar próxima de pessoas que pensam como eu, estou determinada a fazer a minha parte, dar minha contribuição a uma causa, e ser responsável pela conservação de tudo o que me cerca.
Se fossemos procurar resquíscios de alguma patologia nos diversos tipos que compõem o eneagrama, o tipo 7 seria caracterizado como : Transtorno de Personalidade Narcisista.
Seu pecado principal seria : Hedonismo
Seu defeito principal : Gula
Sua virtude principal : Temperança e Equilíbrio ( o que devo perseguir )
Seu eixo : Planejador e realizador inúmeras idéias e atividades para evitar o sentimento.
Seu mantra : Não serei abandonado
Seu pensamento infantil : Sofro com as limitações deste mundo constrangedor ( = limitado ).
Seu floral : Heather, Honeysuckle, Clematis, Cerato, Agrimony.
O que mais me fascinou no exercício do eneagrama foi constatar a mudança que me aconteceu nestes últimos 5 anos.
Exatamente em 2004 minha terapêuta aplicou-me este mesmo questionário e o tipo que melhor representava meu momento naquela época era o tipo 1, e agora encontro como minha melhor representação atual o tipo 7.
O tipo 7 é justamente o que relativiza a dor e o comportamento do tipo 1.
É o tipo 7 que ajuda a harmonizar e experimentar um equilíbrio temporário que chamamos de consolo verdadeiro aos que se representam pelo tipo 1.
“O tipo 1 concentrado e controlado aprende com o tipo 7 a se soltar, ser alegre, festejar e não fazer caso das coisas. O tipo 1 redimido continua trabalhando duro, mas encontra com certa facilidade a paz interior; é capaz de aceitar que está a caminho e não no objetivo.” in Eneagrama, Apostila Alubrat, Docente Professor Luiz Carlos Garcia.
Já aceitando que trilho o Caminho e não estou mais só no objetivo, e que este caminho a partir de agora é o percurso que deverei fazer do tipo 7 para o tipo 5, concluo que a lição que devo aprender a partir deste novo caminhar será : “Parar de reprimir o sofrimento e confiar. Tornar-me mais recolhido e sóbrio. Aprender a ter responsabilidade pela conservação do mundo.” in Eneagrama, Apostila Alubrat, Luiz Carlos Garcia.
Meu tipo no Eneagrama e a relação com o momento atual.
O tipo 7 do Eneagrama é o que melhor me representa no momento, sua descrição ajuda-me a uma melhor análise e entendimento pessoal.
Ao aplicar o questionário a minha pontuação oscilou de 3 a 14 pontos distribuindo-se da seguinte forma :
Tipo Eneagrama === Pontuação obtida
1================= 7
2================= 9
3================= 6
4================= 4
5================= 3
6================= 6
7=================14
8================= 7
9================= 4
Conhecendo o tipo 7 identifiquei em mim, em primeiro lugar o medo de perder a liberdade e em segundo lugar a procura incessante pelo prazer representado pela novidade.
Nos momentos de dificuldades e sofrimentos o que mais se mostra em mim é o medo da profundidade porque promove o enfrentamento com a dor, em decorrência segue-se um sentimento de ansiedade e uma fuga para o mundo exterior.
Este medo da profundidade pode ser melhor compreendido ao analisar meus tipos vizinhos - ou eneatipos em movimento - ou alas.
Os meus são os tipos 6 e 8. Nos subtipos de autoconservação encontro o 6 em mim quando sou acometida por sentimentos de profunda desconfiança e o 8 quando me toma conta o sentimento perfeccionista que pensa que tudo tem que funcionar perfeitamente.
Quanto aos tipos vizinhos que relativizam minha dor trazendo-me conforto, encontro no tipo 6 calma, serenidade e confiança e no tipo 8 maior sociabilidade, ternura e proteção.
No momento identifico uma maior aproximação dos tipos que relativizam minha dor porque sinto uma maior capacidade de confiar, observo-me mais contida, recolhida e sentindo que minha contribuição, mesmo que pequena, é importante para o todo. Procuro estar próxima de pessoas que pensam como eu, estou determinada a fazer a minha parte, dar minha contribuição a uma causa, e ser responsável pela conservação de tudo o que me cerca.
Se fossemos procurar resquíscios de alguma patologia nos diversos tipos que compõem o eneagrama, o tipo 7 seria caracterizado como : Transtorno de Personalidade Narcisista.
Seu pecado principal seria : Hedonismo
Seu defeito principal : Gula
Sua virtude principal : Temperança e Equilíbrio ( o que devo perseguir )
Seu eixo : Planejador e realizador inúmeras idéias e atividades para evitar o sentimento.
Seu mantra : Não serei abandonado
Seu pensamento infantil : Sofro com as limitações deste mundo constrangedor ( = limitado ).
Seu floral : Heather, Honeysuckle, Clematis, Cerato, Agrimony.
O que mais me fascinou no exercício do eneagrama foi constatar a mudança que me aconteceu nestes últimos 5 anos.
Exatamente em 2004 minha terapêuta aplicou-me este mesmo questionário e o tipo que melhor representava meu momento naquela época era o tipo 1, e agora encontro como minha melhor representação atual o tipo 7.
O tipo 7 é justamente o que relativiza a dor e o comportamento do tipo 1.
É o tipo 7 que ajuda a harmonizar e experimentar um equilíbrio temporário que chamamos de consolo verdadeiro aos que se representam pelo tipo 1.
“O tipo 1 concentrado e controlado aprende com o tipo 7 a se soltar, ser alegre, festejar e não fazer caso das coisas. O tipo 1 redimido continua trabalhando duro, mas encontra com certa facilidade a paz interior; é capaz de aceitar que está a caminho e não no objetivo.” in Eneagrama, Apostila Alubrat, Docente Professor Luiz Carlos Garcia.
Já aceitando que trilho o Caminho e não estou mais só no objetivo, e que este caminho a partir de agora é o percurso que deverei fazer do tipo 7 para o tipo 5, concluo que a lição que devo aprender a partir deste novo caminhar será : “Parar de reprimir o sofrimento e confiar. Tornar-me mais recolhido e sóbrio. Aprender a ter responsabilidade pela conservação do mundo.” in Eneagrama, Apostila Alubrat, Luiz Carlos Garcia.
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